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Literatura prostituta

SERGIO DE SÁ
Correio Braziliense, Brasilia, Brasil
Domingo, 26 de maio de 2002

 

© SERGIO DE SÁ
   Pedro Juan Gutiérrez estourou no Brasil com Trilogia Suja de Havana. Veio ao país ano passado para divulgar O Rei de Havana. Virou figura fácil na mídia. Nem por isso a surpresa dos leitores foi menor ao encontrar uma Cuba escrita sem meias-tintas, tomada por uma lubricidade estonteante. Agora aparece Animal Tropical. Este animal dos trópicos é o mesmo personagem da Trilogia.É ele quem conta as histórias.
   De nome Pedro Juan, escritor. Segundo consta, ficção. O que não impediu que o Pedro Juan (Gutiérrez) real tivesse problemas com ‘‘a amante sueca’’, a verdadeira, e não a que divide as atenções do narrador Pedro Juan com a cubana Gloria. A nórdica não gostou de se ver despida pela literatura crua e quase inconseqüente de Gutiérrez. Ganhador do prêmio espanhol Alfonso Garcia-Ramos de 2000, o romance Animal Tropical é feito do contraste. Agneta e Gloria. Animal Tropical, Companhia das Letras, Brasil

   Estocolmo e Havana. Suécia e Cuba. A capital cubana deixa de ser o espaço único da representação nos livros de Gutiérrez, o mais badalado dos escritores cubanos contemporâneos. Ele sai do seu mundo sujo do bairro de Centro Habana para encontrar a placidez sueca. E dar-lhe estocadas. Dois momentos íntimos dão uma idéia disso. Na Suécia, o narrador faz cocô enquanto vê através da janela singelas ovelhas pastando. Em Cuba, ele defeca em um saco de papel, logo atirado no quintal do vizinho.

   O personagem-narrador é um homem falastrão, cheio de ensinamentos. O desprendimento é sua arma. O hedonismo, sua filosofia. As narrativas de Gutiérrez (também poeta e pintor) percorrem caminho uniforme nessa procura incessante por sexo. Com isso, ganha ou perde pela overdose. Cansa ou faz o leitor desistir. Aos homens, a identificação com o macho infalível, sempre a postos. Às mulheres, o príncipe encantado, disposto a satisfazer, saciar a parceira, sem medo de cheiros, atrevendo-se a propor e executar as mais mirabolantes fantasias. O ponto de vista é o do macho sensível. As feministas vão detestar.

   ‘‘— Você é uma puta, Pedro. Tão puta como eu. Vende uma mentira e finge que é verdade. Hahaha’’, ri Gloria. Mas o narrador-prostituto, esse fingidor, não baixa a crista. É convencido até a medula. Faz lembrar o célebre Cobrador de Rubem Fonseca, que cobra do mundo capitalista tudo o que não lhe foi dado. O Fornicador de Pedro Juan parece buscar por meio do sexo a liberdade que a vida em Cuba não lhe propiciou. A Cuba de Pedro Juan Gutiérrez se sacia com sexo. É uma das formas “autorizadas” de escape. Se me permitem o extremo mau gosto, Animal Tropical confirma o que já estava escancarado nas outras obras de Gutiérrez: a cama é o único lugar onde a ditadura não se intromete...

   O que não é verdade. Se transar passa a ser tudo, e se a literatura é lugar de ‘‘denunciar’’ em todas as letras o estado deplorável das coisas, o regime também está em tudo. E algo sempre permanece errado lá fora. No calor miserável dos trópicos ou na perfeição fria da Escandinávia.

Lembranças de Madri

   Pedro Juan Gutiérrez manda notícias de Madri, onde está desde janeiro. Volta a Havana em junho. Conta que tem propostas para o cinema, sem entrar em detalhes. Acaba de publicar na Espanha, pela editora Anagrama, O Insaciável Homem Aranha (não, nada a ver com o arrasa-quarteirão transposto dos quadrinhos para o cinema). Para promover seus livros, circula pela Europa — Alemanha, Holanda, Itália, entre outros países. ‘‘Não posso me queixar’’, diz. Os contos curtos de Melancolía de los Leones, publicados em Cuba no ano 2000, permanecem inéditos no Brasil.

 

     
 
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