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Literatura
prostituta
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Pedro
Juan Gutiérrez estourou no Brasil com Trilogia
Suja de Havana. Veio ao país ano passado para
divulgar O
Rei de Havana. Virou figura fácil na mídia.
Nem por isso a surpresa dos leitores foi menor ao encontrar
uma Cuba escrita sem meias-tintas, tomada por uma lubricidade
estonteante. Agora aparece Animal
Tropical. Este animal dos trópicos é
o mesmo personagem da Trilogia.É ele quem
conta as histórias. |
| De
nome Pedro Juan, escritor. Segundo consta, ficção.
O que não impediu que o Pedro Juan (Gutiérrez)
real tivesse problemas com ‘‘a amante sueca’’,
a verdadeira, e não a que divide as atenções
do narrador Pedro Juan com a cubana Gloria. A nórdica
não gostou de se ver despida pela literatura crua
e quase inconseqüente de Gutiérrez. Ganhador
do prêmio espanhol Alfonso
Garcia-Ramos de 2000, o romance Animal Tropical
é feito do contraste. Agneta e Gloria. |
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Estocolmo e Havana. Suécia
e Cuba. A capital cubana deixa de ser o espaço único
da representação nos livros de Gutiérrez,
o mais badalado dos escritores cubanos contemporâneos.
Ele sai do seu mundo sujo do bairro de Centro Habana para
encontrar a placidez sueca. E dar-lhe estocadas. Dois momentos
íntimos dão uma idéia disso. Na Suécia,
o narrador faz cocô enquanto vê através
da janela singelas ovelhas pastando. Em Cuba, ele defeca em
um saco de papel, logo atirado no quintal do vizinho.
O personagem-narrador é um homem
falastrão, cheio de ensinamentos. O desprendimento
é sua arma. O hedonismo, sua filosofia. As narrativas
de Gutiérrez (também poeta e pintor) percorrem
caminho uniforme nessa procura incessante por sexo. Com isso,
ganha ou perde pela overdose. Cansa ou faz o leitor desistir.
Aos homens, a identificação com o macho infalível,
sempre a postos. Às mulheres, o príncipe encantado,
disposto a satisfazer, saciar a parceira, sem medo de cheiros,
atrevendo-se a propor e executar as mais mirabolantes fantasias.
O ponto de vista é o do macho sensível. As feministas
vão detestar.
‘‘—
Você é uma puta, Pedro. Tão puta como
eu. Vende uma mentira e finge que é verdade. Hahaha’’,
ri Gloria. Mas o narrador-prostituto, esse fingidor, não
baixa a crista. É convencido até a medula. Faz
lembrar o célebre Cobrador de Rubem Fonseca, que cobra
do mundo capitalista tudo o que não lhe foi dado. O
Fornicador de Pedro Juan parece buscar por meio do sexo a
liberdade que a vida em Cuba não lhe propiciou. A Cuba
de Pedro Juan Gutiérrez se sacia com sexo. É
uma das formas “autorizadas” de escape. Se me
permitem o extremo mau gosto, Animal Tropical confirma
o que já estava escancarado nas outras obras de Gutiérrez:
a cama é o único lugar onde a ditadura não
se intromete...
O que não é
verdade. Se transar passa a ser tudo, e se a literatura é
lugar de ‘‘denunciar’’ em todas as
letras o estado deplorável das coisas, o regime também
está em tudo. E algo sempre permanece errado lá
fora. No calor miserável dos trópicos ou na
perfeição fria da Escandinávia.
| Lembranças
de Madri Pedro
Juan Gutiérrez manda notícias de Madri,
onde está desde janeiro. Volta a Havana em junho.
Conta que tem propostas para o cinema, sem entrar em
detalhes. Acaba de publicar na Espanha, pela editora
Anagrama,
O
Insaciável Homem Aranha (não, nada
a ver com o arrasa-quarteirão transposto dos
quadrinhos para o cinema). Para promover seus livros,
circula pela Europa — Alemanha, Holanda, Itália,
entre outros países. ‘‘Não
posso me queixar’’, diz. Os contos curtos
de Melancolía
de los Leones, publicados em Cuba no ano 2000, permanecem
inéditos no Brasil.
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