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O melhor e o pior da Bienal

Evento que termina neste domingo foi sucesso de público, valorizou livros e escritores, mas não está imune a críticas

CRISTIANE COSTA
Jornal do Brasil
25 de maio de 2001

ornal do Brasil, Brasil


Bienal do Livro, Rio de Janeiro

NEM MESMO o intelectual mais empedernido deixa de se alegrar ao ver a quantidade de gente que vem superlotando a 10ª Bienal Internacional do Rio de Janeiro, a ponto de os portões do estacionamento terem sido abertos no domingo para facilitar o fluxo e diminuir o engarrafamento. Mas, depois de passar por quilômetros de estandes e milhares de livros em poucas horas, é raro o maratonista que não sinta um certo cansaço, misturado com fastio, e não diga baixinho para si mesmo: quanta árvore abatida à toa.

   Se é certo que as coisas boas de uma Bienal do Livro se sobrepõem às piores, também não dá para fechar os olhos para os defeitos do evento e que muitas vezes dizem respeito ao mercado editorial brasileiro como um todo. Ninguém duvida que a Bienal do Livro é uma festa para a cidade; uma chance sem igual de o leitor conhecer de perto seu autor favorito; um raro momento em que o livro fica em primeiro plano no cenário cultural, merecendo uma atenção da mídia que dificilmente é dispensada no resto do ano.

   Mas também não dá para entender por que é tão caro ir à Bienal. Fora a gasolina para chegar ao Riocentro, são mais R$ 5 de estacionamento e R$ 6 de entrada por pessoa. O pior é que, com raras exceções, como a FTD a Edusp, as editoras não dão desconto. É o mesmo preço da livraria da esquina ou da internet e ponto final.

   É preciso reconhecer que o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) vem se esforçando para diminuir o caráter comercial, de grande feira de livros, que até então imperava na Bienal e transformá-la cada vez mais num evento cultural. Desde que a Câmara Brasileira do Livro (CBL) tentou criar uma feira em São Paulo no mesmo ano em que se realizaria a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o evento mudou da água para o vinho. Com o objetivo de esvaziar o salão paulista, em 1999, foi feito um tour de force que reuniu mais de 100 escritores em torno de debates, conferências e cafés literários. Detalhe: até o ano anterior, era uma roubada lançar livro ou participar de qualquer conferência na Bienal, tanto a do Rio quanto a de São Paulo. Os auditórios ficavam às moscas e nem as mães dos escritores apareciam.

   O público carioca correspondeu aos esforços e, nesta edição, o Café Literário se consolidou como o grande atrativo da Bienal. Debates como os que reuniram Tony Bellotto, Luis Fernando Verissimo, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Patricia Melo para falar de literatura policial provocaram filas quilométricas de leitores à espera de uma senha no último domingo. Mas a programação bem que poderia, na próxima edição, dar uma canja para os menos vendidos, assim como jovens autores, misturando-os às celebridades que monopolizaram as mesas.

Popular - Os lançamentos das grandes editoras durante a Bienal também priorizam os títulos comerciais e autores célebres, abrindo pouco espaço aos escritores menos conhecidos. Faz sentido, já que, no meio de 1.200 lançamentos num único mês, aparece mais quem já tem um nome firmado no meio literário. São quase nulas as chances de um autor iniciante não ser engolido por um medalhão e conquistar um lugar ao sol nessa selva de divulgadores.

   Naquele que é um dos maiores eventos culturais da cidade, não faltam livros de auto-ajuda para tudo. A impressão é de que, dos alardeados 1.200 lançamentos em um mês, um mil vieram à luz para ensinar os outros como alcançar a paz, o sucesso, emagrecer, namorar, casar, separar e fazer sexo (isso então é o que mais tem). Desde os ensinamentos do colunista da Playboy James Petersen, que explica em 265 maneiras de enlouquecer juntos na cama quais os acessórios necessários para realizar uma Filadélfia voadora (ou o que é que isso seja), até as dicas médico-filosóficas inspiradas na sabedoria indiana do Dr. Chopra - agora além do Deepak tem o Krishan - pode-se aprender de tudo na Bienal. Krishan (o pai) é autor de O segredo da saúde e da longevidade e agora está tirando casquinha do sucesso de Deepak (o filho), que lança Como conhecer Deus, obra que dá seqüência aos 11 títulos que já tem publicados no Brasil. Nem mesmo Sua Santidade O Dalai Lama escapa. O adorável líder tibetano lança mais um título nesta Bienal, Amor, verdade, felicidade: reflexões para transformar a mente e assina o prefácio de outro, Espiritualidade essencial, de Roger Walsh, um típico M.D., Ph.D.

   Bienal também parece ser a época perfeita para se lançar best seller. A bucólica Nora Roberts comparece com A pousada do fim do Rio - uma daquelas manjadas histórias de uma mocinha que descobre o amor enquanto busca pela verdade escondida em seu passado - e o elétrico Michael Crichton com Congo - romance baseado na história real de uma expedição ao coração da África que encontra a morte em meio às ruínas de uma cidade perdida e uma jazida de valiosos diamantes azuis. Mas a onda do momento é mesmo o romance histórico passado na Antigüidade, qualquer uma: de As memórias de Cleópatra, a Os herdeiros de Nero, passando pelos primeiros volumes de Os incas e da Trilogia de Cartago, além de o último da saga de Ramsés, é o filão do momento.

Nacionais - Obviamente não falta também polêmica na literatura brasileira, como a que cercou o lançamento de Os 100 poemas do século, antologia organizada por Ítalo Moriconi, que esgotou a primeira edição mal saiu da gráfica. Outro destaque da literatura brasileira é Barco a seco, o novo romance de Rubens Figueiredo, vem sendo considerado por críticos e leitores mais exigentes como a melhor obra de ficção nacional lançada nesta Bienal e sério candidato ao Prêmio Jabuti. Mas pode ser que dê zebra na hora da escolha, como em várias categorias do prêmio entregue este ano, entre elas a de melhor romance. Nunca se sabe quais os critérios dos jurados.

   Bienal também é época de convidados estrangeiros. A delegação espanhola veio meio fraquinha, como assinalou o jornalista Juan Árias em seu artigo em El País. Seus únicos nomes de peso foram a perua Carmen Posadas e o antipático Manuel Vázquez Montalbán. Mas, além dos livros, uma das melhores coisas do estande da Espanha era a exposição de encadernações premiadas. Ousadíssimas, elas fogem da idéia de livro encadernado como coisa do vovô. Só que, perto do investimento feito por Portugal, na última Bienal do Rio, foi muito pouco. O bom é que quem se apaixonou pela literatura portuguesa contemporânea pôde contar este ano com um presente da editora Cotovia. Seus mais recentes lançamentos, como o último livro de Pedro Paixão, Do mal o menos, estavam à venda a preços que não eram de importados.

   Nem por isso deixou-se de falar espanhol durante a festa de inauguração da Bienal, no Parque Lage, dada a presença da alta diretoria da Prisa-Santillana, um dos grupos editoriais mais importantes do mundo e que, de olho no mercado brasileiro, comprou a Moderna. Os espanhóis conversaram muito com os editores brasileiros, mas parecem estar apenas observando o jogo antes de arriscar novos lances milionários. Alguns tentaram uns passinhos de forró numa festa que entrou para a história como a melhor da Bienal - o que não é difícil, já que as outras tinham como característica principal a chatice e a comida ruim. Desta vez, o buffet escolhido arrasou, não tanto pelos acepipes moderninhos, mas pela escolha dos animadíssimos garçons e garçonetes (em que agência de modelos foram contratados?), que arrancaram suspiros dos solteiros e solteiras, lá pelas 4h da manhã, ao subir na bancada do bar e fazer um show improvisado, que contou ainda com uma performance espontânea de Débora Colker.

Ele e ela - Se os escritores espanhóis se mostraram discretos, sucesso mesmo, e por diferentes razões, fizeram o cubano Pedro Juan Gutiérrez e a americana Shere Hite. O jeitão do rei de Havana é um misto de latin lover e bad boy, mas ele tratou logo de botar água fria nas leitoras mais calientes, que levaram à sério as realistas cenas de sexo de seus livros. "Sou um homem de 50 anos, pai de quatro filhos. Estão confundindo o autor com o personagem", dizia. Resultado: quase ninguém viu a famosa tatuagem de uma cobra enrolada numa adaga, camuflada pela camisa.

   Louríssima, maquiadíssima, branquíssima, e com uns modelitos que mais pareciam ter sido compradas na loja da Barbie, a poderosa Shere Hite jamais passou despercebida, mesmo no tumulto da Bienal. Lânguida como nenhuma outra feminista até hoje teve a coragem de ser, ela podia ser reconhecida pelos tons de suas saias de cetim, entre o azul Cinderela e o rosa bebê.

O melhor - O pior

   Evidentemente, o sucesso não é medida de tudo numa Bienal. Tanto as conferências do historiador francês Roger Chartier quanto as do sociólogo italiano Domenico De Masi ficaram lotadas. Mas se o primeiro, em Cultura escrita, literatura e história, escapa brilhantemente do blá-blá-blá em torno do fim do livro, o segundo repete, em A economia do ócio, a lenga-lenga utópica de que o capitalismo vai por livre e espontânea vontade permitir que seus trabalhadores diminuam as horas de labuta para que todos tenham mais empregos. Só se for no céu.

Infantil - A cada ano, a Bienal do Livro se firma como um dos programas mais int eressantes para se levar as crianças. Dá gosto ver seus olhinhos brilhando ao folhear tantos livros coloridos ou ouvir os contadores de história. Mas que elas fazem uma algazarra, fazem. Principalmente durante a semana, quando são esperadas as 170 mil crianças dentro do programa de visitação escolar. As que estudam em escolas públicas recebem R$ 2 para comprarem qualquer coisa. É melhor que nada, mas bem que o governador Garotinho poderia ter sido mais generoso com os futuros leitores cariocas.

   Se escapar de trombar com um pequeno em disparada, fugir dos apelos insistentes dos vendedores de assinatura de revistas, evitar perder tempo em dezenas de estandes que não têm nada a ver com livros, o leitor pode encontrar um bom motivo para sua ida à Bienal garimpando preciosidades bibliográficas no estande das editoras universitárias (que numa boa sacada se reuniram num mesmo lugar, em vez de se espalhar pela Bienal), nas charmosas bancas de importados da Livraria da Travessa (considerado o mais inovador estande do evento) e da Leonardo da Vinci. Se sair do Riocentro com um livro na mão e o desejo de ler aguçado por todo essa movimentação em torno da literatura, já valeu a ida à Bienal.

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