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O
melhor e o pior da Bienal
Evento que termina neste domingo foi sucesso
de público, valorizou livros e escritores, mas não
está imune a críticas
Nem mesmo o intelectual
mais empedernido deixa de se alegrar ao ver a quantidade de
gente que vem superlotando a 10ª Bienal Internacional
do Rio de Janeiro, a ponto de os portões do estacionamento
terem sido abertos no domingo para facilitar o fluxo e diminuir
o engarrafamento. Mas, depois de passar por quilômetros
de estandes e milhares de livros em poucas horas, é
raro o maratonista que não sinta um certo cansaço,
misturado com fastio, e não diga baixinho para si mesmo:
quanta árvore abatida à toa.
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Se é
certo que as coisas boas de uma Bienal do Livro se sobrepõem
às piores, também não dá para
fechar os olhos para os defeitos do evento e que muitas
vezes dizem respeito ao mercado editorial brasileiro como
um todo. Ninguém duvida que a Bienal do Livro é
uma festa para a cidade; uma chance sem igual de o leitor
conhecer de perto seu autor favorito; um raro momento
em que o livro fica em primeiro plano no cenário
cultural, merecendo uma atenção da mídia
que dificilmente é dispensada no resto do ano. |
Mas também não
dá para entender por que é tão caro ir
à Bienal. Fora a gasolina para chegar ao Riocentro,
são mais R$ 5 de estacionamento e R$ 6 de entrada por
pessoa. O pior é que, com raras exceções,
como a FTD a Edusp, as editoras não dão desconto.
É o mesmo preço da livraria da esquina ou da
internet e ponto final.
É preciso reconhecer
que o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) vem
se esforçando para diminuir o caráter comercial,
de grande feira de livros, que até então imperava
na Bienal e transformá-la cada vez mais num evento
cultural. Desde que a Câmara Brasileira do Livro (CBL)
tentou criar uma feira em São Paulo no mesmo ano em
que se realizaria a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o evento
mudou da água para o vinho. Com o objetivo de esvaziar
o salão paulista, em 1999, foi feito um tour de
force que reuniu mais de 100 escritores em torno de debates,
conferências e cafés literários. Detalhe:
até o ano anterior, era uma roubada lançar livro
ou participar de qualquer conferência na Bienal, tanto
a do Rio quanto a de São Paulo. Os auditórios
ficavam às moscas e nem as mães dos escritores
apareciam.
O público carioca
correspondeu aos esforços e, nesta edição,
o Café Literário se consolidou como o grande
atrativo da Bienal. Debates como os que reuniram Tony Bellotto,
Luis Fernando Verissimo, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Patricia
Melo para falar de literatura policial provocaram filas quilométricas
de leitores à espera de uma senha no último
domingo. Mas a programação bem que poderia,
na próxima edição, dar uma canja para
os menos vendidos, assim como jovens autores, misturando-os
às celebridades que monopolizaram as mesas.
Popular
- Os lançamentos das grandes editoras durante a Bienal
também priorizam os títulos comerciais e autores
célebres, abrindo pouco espaço aos escritores
menos conhecidos. Faz sentido, já que, no meio de 1.200
lançamentos num único mês, aparece mais
quem já tem um nome firmado no meio literário.
São quase nulas as chances de um autor iniciante não
ser engolido por um medalhão e conquistar um lugar
ao sol nessa selva de divulgadores.
Naquele que é
um dos maiores eventos culturais da cidade, não faltam
livros de auto-ajuda para tudo. A impressão é
de que, dos alardeados 1.200 lançamentos em um mês,
um mil vieram à luz para ensinar os outros como alcançar
a paz, o sucesso, emagrecer, namorar, casar, separar e fazer
sexo (isso então é o que mais tem). Desde os
ensinamentos do colunista da Playboy James Petersen, que explica
em 265 maneiras de enlouquecer juntos na cama quais
os acessórios necessários para realizar uma
Filadélfia voadora (ou o que é que
isso seja), até as dicas médico-filosóficas
inspiradas na sabedoria indiana do Dr. Chopra - agora além
do Deepak tem o Krishan - pode-se aprender de tudo na Bienal.
Krishan (o pai) é autor de O segredo da saúde
e da longevidade e agora está tirando casquinha
do sucesso de Deepak (o filho), que lança Como
conhecer Deus, obra que dá seqüência
aos 11 títulos que já tem publicados no Brasil.
Nem mesmo Sua Santidade O Dalai Lama escapa. O adorável
líder tibetano lança mais um título nesta
Bienal, Amor, verdade, felicidade: reflexões para
transformar a mente e assina o prefácio de outro,
Espiritualidade essencial, de Roger Walsh, um típico
M.D., Ph.D.
Bienal também
parece ser a época perfeita para se lançar best
seller. A bucólica Nora Roberts comparece com A
pousada do fim do Rio - uma daquelas manjadas histórias
de uma mocinha que descobre o amor enquanto busca pela verdade
escondida em seu passado - e o elétrico Michael Crichton
com Congo - romance baseado na história real
de uma expedição ao coração da
África que encontra a morte em meio às ruínas
de uma cidade perdida e uma jazida de valiosos diamantes azuis.
Mas a onda do momento é mesmo o romance histórico
passado na Antigüidade, qualquer uma: de As memórias
de Cleópatra, a Os herdeiros de Nero,
passando pelos primeiros volumes de Os incas e da
Trilogia de Cartago, além de o último
da saga de Ramsés, é o filão do momento.
Nacionais
- Obviamente não falta também polêmica
na literatura brasileira, como a que cercou o lançamento
de Os 100 poemas do século, antologia organizada
por Ítalo Moriconi, que esgotou a primeira edição
mal saiu da gráfica. Outro destaque da literatura brasileira
é Barco a seco, o novo romance de Rubens Figueiredo,
vem sendo considerado por críticos e leitores mais
exigentes como a melhor obra de ficção nacional
lançada nesta Bienal e sério candidato ao Prêmio
Jabuti. Mas pode ser que dê zebra na hora da escolha,
como em várias categorias do prêmio entregue
este ano, entre elas a de melhor romance. Nunca se sabe quais
os critérios dos jurados.
Bienal também
é época de convidados estrangeiros. A delegação
espanhola veio meio fraquinha, como assinalou o jornalista
Juan Árias em seu artigo em El País.
Seus únicos nomes de peso foram a perua Carmen Posadas
e o antipático Manuel Vázquez Montalbán.
Mas, além dos livros, uma das melhores coisas do estande
da Espanha era a exposição de encadernações
premiadas. Ousadíssimas, elas fogem da idéia
de livro encadernado como coisa do vovô. Só que,
perto do investimento feito por Portugal, na última
Bienal do Rio, foi muito pouco. O bom é que quem se
apaixonou pela literatura portuguesa contemporânea pôde
contar este ano com um presente da editora Cotovia. Seus mais
recentes lançamentos, como o último livro de
Pedro Paixão, Do mal o menos, estavam à venda
a preços que não eram de importados.
Nem por isso deixou-se
de falar espanhol durante a festa de inauguração
da Bienal, no Parque Lage, dada a presença da alta
diretoria da Prisa-Santillana, um dos grupos editoriais mais
importantes do mundo e que, de olho no mercado brasileiro,
comprou a Moderna. Os espanhóis conversaram muito com
os editores brasileiros, mas parecem estar apenas observando
o jogo antes de arriscar novos lances milionários.
Alguns tentaram uns passinhos de forró numa festa que
entrou para a história como a melhor da Bienal - o
que não é difícil, já que as outras
tinham como característica principal a chatice e a
comida ruim. Desta vez, o buffet escolhido arrasou, não
tanto pelos acepipes moderninhos, mas pela escolha dos animadíssimos
garçons e garçonetes (em que agência de
modelos foram contratados?), que arrancaram suspiros dos solteiros
e solteiras, lá pelas 4h da manhã, ao subir
na bancada do bar e fazer um show improvisado, que contou
ainda com uma performance espontânea de Débora
Colker.
Ele
e ela - Se os escritores espanhóis se
mostraram discretos, sucesso mesmo, e por diferentes
razões, fizeram o cubano Pedro
Juan Gutiérrez e a americana Shere Hite.
O jeitão do rei
de Havana é um misto de latin lover e bad boy,
mas ele tratou logo de botar água fria nas leitoras
mais calientes, que levaram à sério as
realistas cenas de sexo de seus livros. "Sou um
homem de 50 anos, pai de quatro filhos. Estão
confundindo o autor com o personagem", dizia. Resultado:
quase ninguém viu a famosa tatuagem
de uma cobra enrolada numa adaga, camuflada pela camisa.
Louríssima, maquiadíssima,
branquíssima, e com uns modelitos que mais pareciam
ter sido compradas na loja da Barbie, a poderosa Shere
Hite jamais passou despercebida, mesmo no tumulto da
Bienal. Lânguida como nenhuma outra feminista
até hoje teve a coragem de ser, ela podia ser
reconhecida pelos tons de suas saias de cetim, entre
o azul Cinderela e o rosa bebê. |
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Evidentemente, o sucesso
não é medida de tudo numa Bienal. Tanto as conferências
do historiador francês Roger Chartier quanto as do sociólogo
italiano Domenico De Masi ficaram lotadas. Mas se o primeiro,
em Cultura escrita, literatura e história,
escapa brilhantemente do blá-blá-blá
em torno do fim do livro, o segundo repete, em A economia
do ócio, a lenga-lenga utópica de que o capitalismo
vai por livre e espontânea vontade permitir que seus
trabalhadores diminuam as horas de labuta para que todos tenham
mais empregos. Só se for no céu.
Infantil
- A cada ano, a Bienal do Livro se firma como um dos programas
mais int eressantes para se levar as crianças. Dá
gosto ver seus olhinhos brilhando ao folhear tantos livros
coloridos ou ouvir os contadores de história. Mas que
elas fazem uma algazarra, fazem. Principalmente durante a
semana, quando são esperadas as 170 mil crianças
dentro do programa de visitação escolar. As
que estudam em escolas públicas recebem R$ 2 para comprarem
qualquer coisa. É melhor que nada, mas bem que o governador
Garotinho poderia ter sido mais generoso com os futuros leitores
cariocas.
Se escapar de trombar
com um pequeno em disparada, fugir dos apelos insistentes
dos vendedores de assinatura de revistas, evitar perder tempo
em dezenas de estandes que não têm nada a ver
com livros, o leitor pode encontrar um bom motivo para sua
ida à Bienal garimpando preciosidades bibliográficas
no estande das editoras universitárias (que numa boa
sacada se reuniram num mesmo lugar, em vez de se espalhar
pela Bienal), nas charmosas bancas de importados da Livraria
da Travessa (considerado o mais inovador estande do evento)
e da Leonardo da Vinci. Se sair do Riocentro com um livro
na mão e o desejo de ler aguçado por todo essa
movimentação em torno da literatura, já
valeu a ida à Bienal.
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