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O Rei do Café

Evento que termina neste domingo foi sucesso de público, valorizou livros e escritores, mas não está imune a críticas

LEANDRO MAZZINI
Jornal do Brasil
25 de maio de 2001

ornal do Brasil, Brasil


Bienal do Livro, Rio de Janeiro

NEM MONTALBÁN, nem Carmen Posadas. O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez foi o protagonista do melhor Café Literário já realizado, até o momento, na X Bienal do Livro do Rio. Na noite de quarta-feira ele bebeu rum, falou à vontade, se espreguiçou no meio da entrevista e - como bom cubano - só faltou acender um charuto. Depois de 1h20 comentando a "literatura marginal", Gutiérrez quebrou o protocolo e tornou-se o primeiro escritor a conversar com os presentes, para a alegria dos fãs que gritavam: "parou por quê?".

Pedro Juan Gutiérrez (©PEDRO GOMES)    Ele não parou. Durante o encontro, Gutiérrez parecia estar em casa, literalmente. Para o cubano - admirador incondicional do Brasil - Fortaleza e Rio são um prolongamento de Havana. "Há uma identidade social muito grande", disse. Além da literatura, Pedro Juan encontra na pintura e escultura um refúgio nos momentos em que se afasta das letras.

   Moderado, mas de certo modo irreverente, o autor se diz surpreendido com a crítica, que o rotulou um seguidor de Henry Miller e Hemingway. "Nunca tinha lido nenhum livro deles quando escrevi ‘Trilogia Suja de Havana’. Eles têm uma visão pessimista da vida, e eu crio alegria com meus livros", afirmou, esticando o comentário aos seus personagens: "sou o contrário de Agatha Christie, que mata seus personagens. Quero mais que meu personagem goze a vida, seja alegre e faça muito sexo", disse, arrancando risos dos fãs, entre eles o cartunista Jaguar, que o presenteou com charutos e uma garrafa de rum.

   Pedro Juan não é simplesmente um cubano que viu na revolução em seu país uma fonte de inspiração literária. "Sou um escritor de drama humano, e não um autor político, mas a revolução causou um ‘caos’ em mim", confessou. Para quem foi jornaleiro, instrutor de natação, trabalhou no campo e conquistou garotas com suas poesias juvenis, a literatura tornou-se a melhor forma de expressar sua visão da nação comandada por Fidel, a quem poupou comentários. "Me preocupava em encontrar um tema, mas descobri que o tema estava no cotidiano do povo cubano, nas coisas simples", argumentou, com a experiência de 26 anos de jornalismo.

   O sucesso talvez esteja na simplicidade de sua linguagem: direta e desprovida de metáforas. Seus dois livros, "Trilogia suja de Havana" (crônicas) e "O rei de Havana" (romance-lançamento), da Companhia das Letras, tornaram-se best-seller na Europa e abriram caminho para o terceiro, o romance "Animal tropical", lançado recentemente na Espanha e que deve chegar ao Brasil nos próximos meses.

   O autor ainda pretende lançar "O insaciável homem-aranha" (contos), que já está no prelo. A produção constante e o segredo do sucesso são conseqüência de um ritual: "Acordo, tomo um café e com muita paciência escrevo num lugar quieto. Quero que o leitor consiga ler meu livro até o final", disse, tomando em seguida uma dose de rum, que considera uma das poucas alegrias que o cubano goza, além da salsa e do sexo. No entanto, a consagração de sua obra pode lhe dar muito mais que uma boa dose de sua bebida predileta.

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