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O
mundo aos olhos do 'animal tropical'
Destaque da Bienal, autor cubano ressalta
em texto exclusivo a vitalidade de Fortaleza e Havana
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Em
algumas igrejas de Roma, as pessoas que querem se confessar
colocam moedas numa máquina e falam de seus pecados.
Quando terminam, a máquina lhes impõe
a penitência que possibilita expiar suas culpas.
Num hospital das
Ilhas Canárias, alguns atendimentos aos pacientes
são feitos por robôs, embora se saiba perfeitamente
que um doente necessita do cuidado e do contato humano,
que pode ser tão importante quanto - ou mais
do que - os medicamentos. A lista poderia ser interminável.
Todo dia, as máquinas invadem mais territórios
humanos. E conseguem separar ou isolar mais as pessoas.
Cada um se encápsula em sua pequena galáxia
e tenta esquecer o resto.
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Há explicações
sociológicas bem convincentes para esta universalização
da solidão. Mas eu diria que é mais um tema
europeu e norte-americano. Um assunto típico dos países
ricos. A solidão metafísica que todos sentimos
alguma vez e que, inclusive, buscamos e desejamos, de tempos
em tempos, é outra coisa, inerente à natureza
humana mais profunda.
Falo da solidão
que não se deseja. Da solidão doentia, típica
da modernidade. Tenho tido a sorte de viajar pela Europa nos
últimos 25 anos e me senti mordido ferozmente pela
solidão na Suécia e na Alemanha, que, por acaso,
são dois dos países mais ricos do mundo.
Ante essa solidão
corrosiva a gente se sente indefeso e, então, sai em
busca de companhia. E nem sempre se encontra com outra pessoa,
porque cada um está encapsulado em sua própria
caverna, ocupado em ganhar dinheiro ou seja lá o que
for. Então, que se pode fazer? Como escapo da solidão
que me inunda em seu silêncio deprimente?
Não quero falar
da Suécia, porque em meu romance Animal
tropical respondo a essa pergunta. Mas há uma pequena
cidade da Saxônia, no sudeste da Alemanha, que visito
anualmente no verão. Chama-se Chemnitz e é uma
cidade antiqüíssima. Por ali passava a Rota do
Sal na Idade Média. Me hospedo na casa de um amigo,
pintor e escultor e, na maior parte do tempo, fico sozinho.
Ouço música, pinto, vejo filmes pornô
e os canais internacionais e revejo vez por outra as inscrições
antigas em um lapidarium que fica a dois passos da casa. Também
visito à tarde o bar Bukowski e porno-shops. Bebo uma
dose de uísque e às vezes olho as fotos de Bukowski
nas paredes. Fico entediado. Saio e olho de longe as putas
alemãs e polacas que pululam lá fora, em frente
às porno-shops. Não poderia me deitar com nenhuma
delas, nem que me pagassem muito bem - tenho alma e vocação
de dono, jamais de cliente - porque me parecem demasiadamente
incolores e insípidas para meu gosto. Depois, continuo
caminhando e vou a uma enorme área onde vendem carros
usados muito atraentes, com apenas 40 mil quilômetros
rodados e preços em torno de US$ 500. Assim passo o
dia. Sem falar. Às vezes, de noite, encontro meu amigo
em casa e conversamos um pouquinho. Bebemos vinho, fumamos
tabaco cubano, ouvimos salsa cubana, recordamos as mulatas
cubanas e sofremos saudade de Cuba. ''Sou alemão de
nascimento, italiano pelo sangue paterno e cubano de coração'',
diz meu amigo.
Isso é tudo.
Resisto um mês ou pouco mais a essa monotonia e me parece
um ano. Às vezes consigo afinal vender alguns quadros
e em seguida regresso à pequena casa.
Na Suécia, na Noruega, tem sido pior ainda esta sensação
de que sou um átomo absolutamente solitário
vagando na atmosfera do planeta, flutuando no ar.
©Pedro Juan Gutiérrez
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