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Caos
cubano compensa vazio europeu
Destaque da Bienal, autor cubano ressalta
em texto exclusivo a vitalidade de Fortaleza e Havana
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Confesso que sou
um pouco lento para compreender a mim mesmo. Geralmente
atuo, vivo, exploro e escrevo meus contos e romances
por impulsos nem sempre claros e transparentes. O mais
comum é que tudo seja inexplicável. El
Rey de la Habana, por exemplo, eu escrevi numa espécie
de ''transe'' que durou 57 dias, nos meses de julho
e agosto de 1998. Jamais poderei explicar de modo racional
e lógico como foi. Nunca saberei por que esse
livro é tão apocalíptico, terrível
e alucinante.
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Ocorre-me uma explicação
muito saxã, para o caso da Saxônia: talvez eu
continue visitando a Alemanha no verão por algum prazer
masoquista; gosto de sentir as chicotadas da solidão
e a incomunicação total; gosto de me afogar
nesse vazio absoluto como numa campana de cristal, para imediatamente
depois regressar triunfante à incoerência informal
e diabólica do ruído, do caos e da vertigem
incontrolável de Havana.
Isto eu compreendi há
pouco. E não o entendi na Alemanha nem em Cuba. Captei
de chofre - como chegam as idéias iluminadas - certa
noite, meio bêbado, passeando com vários amigos
e amigas nordestinas na belíssima praia de Fortaleza,
no Ceará.
Em outubro passado me
convidaram para a Bienal do Livro nessa cidade e adorei a
possibilidade de conhecer o Nordeste do Brasil. Pensei: ''Ah,
que bom, o mundo encantado de Glauber Rocha.'' Nada disso.
Em nenhuma parte vi Deus nem o Diabo. Em compensação,
encontrei uma zona do planeta muito parecida com minha terra
caribenha. A cor das pessoas, seu modo de falar, de vestir,
de andar. O mesmo modo de sorrir sedutoramente. O mesmo modo
de viver a noite. E a pobreza excessiva e dolorosa, até
escandalosa. Tudo igual a Cuba. Vi muitíssimas pessoas
muito pobres, como em meu bairro e em meu país, mas
com alegria, com humildade, com bondade, capaz de viver generosamente
sua vida com uma grande espiritualidade. E, para mim, espiritualidade
não é só orar a Deus e aos santos todo
dia, mas também desfrutar com alegria a música
e a dança, as cores, o sexo, a bondade e o amor, em
cada minuto, saber agradecer esta vida magnífica que
nos foi dada.
Esta capacidade de nos
entregarmos a nós mesmos e aos demais, entregarmo-nos
totalmente, com alegria e generosidade, encontrei-a em outubro
passado, em Fortaleza. E ali compreendi perfeitamente uma
idéia que vive latente dentro de mim, há muitos
anos: as nossas reservas espirituais, os pobres da Terra,
são as que podem salvar o mundo moderno da catástrofe
total.
Há dois ou três
anos, numa fria tarde outonal em Paris, conversei longamente
sobre este assunto com meu amigo espanhol Luis Racionero.
Consumimos duas garrafas de um tinto francês excelente
e seguimos finalmente cada um por um lado, sem convencer o
outro. Ele sustenta que as reservas espirituais do Oriente,
que eram uma esperança para o Ocidente esgotado e dividido
espiritualmente, estão se perdendo rapidamente, devido
ao desenvolvimento econômico da Ásia. Ele desenvolve
a idéia de modo exaustivo e com muita agudeza e graça
em seu recente livro, Oriente y Occidente, publicado
pela Anagrama,
em Barcelona.
Para mim, o tema não
se reduz às filosofias e à intuição
transcendental da Ásia. Vou muito mais além.
Creio na África. Creio nas Américas, creio nos
asiáticos, nos europeus. Creio na condição
humana de qualquer pessoa, seja um esquimó ou um dos
primeiros cem milionários do mundo. Apesar de todas
as provas em contrário, creio que o ser humano é
inocente e não merece ser condenado.
Creio no ser humano pequenino,
individual, desnudo, impaciente, ignorante, torturado e terno
que, afinal de contas, somos todos nós.
Em compensação,
perdi totalmente a fé na política, nos políticos
e nas ideologias. Qualquer sistema, por lei, se transforma
a curto ou a longo prazo num eixo de poder e imediatamente
se cerca de todos os mecanismos de controle e repressão
imprescindíveis para se manter erecto, vertical, autoritário,
intocável e intocado. Estou convencido de que qualquer
sistema político ou ideológico - além
de suas intenções e realizações
iniciais - se transforma em máquina trituradora implacável.
Felizmente, não
sou dotado - como meu amigo Racionero - para teorizar sobre
o assunto. Não sou um teórico nem um sociólogo.
Suspeito que não sou sequer um pensador, se é
que ainda existe esse ofício neste planeta coitado.
Sou um simples ser humano, com um coraçãozinho
e com uma capacidade de observação bastante
aguçada por meu ofício de jornalista
e escritor.
Estou convencido de que
o discurso político, em sua essência, é
exatamente o mesmo desde que na horda selvagem houve um indivíduo
mais raivoso e mais astuto que o resto. Num ímpeto
de fúria, o tipo matou a pauladas três ou quatro
congêneres. Rugiu um pouco para atemorizar os outros
e assim forçá-los a que o adorassem e trouxessem
os melhores alimentos e as melhores damas. Para reforçar
mais seu papel, sentou-se em uma pedra alta e obrigou os outros
a olhar para cima. Assim os fez acreditar que ele era mais
alto, maior e mais poderoso. Depois, continuou inventando
e estabelecendo rituais, cerimônias e mecanismos para
aumentar sua auréola. Isto aconteceu numa caverna há
milhares de anos, pela primeira vez. Repete-se desde então,
e hoje continua acontecendo nos palácios de governo
do mundo inteiro.
Repito que não
sou um teórico. Sou um simples ser humano. Mais um,
que detesta o imbecil que agarra o garrote na mão,
sobe ao trono e se alimenta com sua própria arrogância
e soberba.
Por isso, estou convencido
de que a Humanidade em algum momento ingressará em
outra fase de desenvolvimento. A natureza do ser humano é
marcada pelo amor e a compaixão. Não pelo ódio
nem pelo rancor. Os sistemas políticos sustentados
em eixos de poder que dividem a sociedade em governados e
governantes não podem de nenhum modo ser eternos porque
se baseiam na violência.
As reservas espirituais
dos países mais pobres, da gente mais simples, são,
cada dia mais, um paradigma certo de como se pode viver com
um pouco de justiça, serenidade e compaixão.
Com um equilíbrio de dar e receber.
O Brasil, por exemplo,
é um país imenso. Não só geograficamente,
mas culturalmente. Em tudo: música, cinema, literatura,
teatro, visualidade, religiosidade. É um país
fabuloso e ao mesmo tempo desconhecido além de suas
fronteiras. Muito poucos imaginam o enorme potencial cultural
e espiritual do Brasil. Para a maioria dos cubanos, o Brasil
é sinônimo de telenovelas hipnóticas.
E nada mais. E suspeito que, até para os brasileiros,
seu país é um enigma. Um paulista pouco ou nada
sabe do Nordeste. É o mesmo que acontece no México,
na Espanha e na França. E até em Cuba - muito
menor - o desconhecimento separa e distancia os habitantes
do oriente e do ocidente da ilha. Os orientais são
chamados depreciativamente de ''palestinos'', como sinônimo
dos sem-terra, que vagam pelo país em busca de casa
e trabalho.
Quero crer que essas
ignorâncias se apagarão pouco a pouco. E creio
que ganhamos terreno. Hoje se viaja muito mais. Há
mais comunicação de todo tipo. E só essa
comunicação horizontal, direta, entre as pessoas,
é o que nos possibilita escolher o mais conveniente
e entender que temos mais semelhanças do que diferenças
e não devemos sentir apreensões ante o diferente
de nós.
Naquela noite, caminhando
pela praia de Fortaleza, ouvindo o rumor do Atlântico,
conversando com alguns amigos nordestinos, meio embriagados
como eu, não me senti estranho nem distanciado. Não
pensei que estava fora de casa. Me senti muito bem e entrei
na água fria e escura. Nadei um pouco. Me esvaziei
de tanto álcool e disse para mim: Somos alegres e selvagens!
Que bom, vale a pena viver assim!
©Pedro Juan Gutiérrez
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