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Caos cubano compensa vazio europeu

Destaque da Bienal, autor cubano ressalta em texto exclusivo a vitalidade de Fortaleza e Havana

PEDRO JUAN Gutiérrez
Jornal do Brasil
Quinta-feira, 17 de Maio de 2001

Jornal do Brasil, Brasil


CONFESSO que sou um pouco lento para compreender a mim mesmo. Geralmente atuo, vivo, exploro e escrevo meus contos e romances por impulsos nem sempre claros e transparentes. O mais comum é que tudo seja inexplicável. El Rey de La Habana, por exemplo, eu escrevi numa espécie de ''transe'' que durou 57 dias, nos meses de julho e agosto de 1998. Jamais poderei explicar de modo racional e lógico como foi. Nunca saberei por que esse livro é tão apocalíptico, terrível e alucinante.

Pedro Juan Gutiérrez (©PEDRO GOMES)

   Ocorre-me uma explicação muito saxã, para o caso da Saxônia: talvez eu continue visitando a Alemanha no verão por algum prazer masoquista; gosto de sentir as chicotadas da solidão e a incomunicação total; gosto de me afogar nesse vazio absoluto como numa campana de cristal, para imediatamente depois regressar triunfante à incoerência informal e diabólica do ruído, do caos e da vertigem incontrolável de Havana.

   Isto eu compreendi há pouco. E não o entendi na Alemanha nem em Cuba. Captei de chofre - como chegam as idéias iluminadas - certa noite, meio bêbado, passeando com vários amigos e amigas nordestinas na belíssima praia de Fortaleza, no Ceará.

   Em outubro passado me convidaram para a Bienal do Livro nessa cidade e adorei a possibilidade de conhecer o Nordeste do Brasil. Pensei: ''Ah, que bom, o mundo encantado de Glauber Rocha.'' Nada disso. Em nenhuma parte vi Deus nem o Diabo. Em compensação, encontrei uma zona do planeta muito parecida com minha terra caribenha. A cor das pessoas, seu modo de falar, de vestir, de andar. O mesmo modo de sorrir sedutoramente. O mesmo modo de viver a noite. E a pobreza excessiva e dolorosa, até escandalosa. Tudo igual a Cuba. Vi muitíssimas pessoas muito pobres, como em meu bairro e em meu país, mas com alegria, com humildade, com bondade, capaz de viver generosamente sua vida com uma grande espiritualidade. E, para mim, espiritualidade não é só orar a Deus e aos santos todo dia, mas também desfrutar com alegria a música e a dança, as cores, o sexo, a bondade e o amor, em cada minuto, saber agradecer esta vida magnífica que nos foi dada.

   Esta capacidade de nos entregarmos a nós mesmos e aos demais, entregarmo-nos totalmente, com alegria e generosidade, encontrei-a em outubro passado, em Fortaleza. E ali compreendi perfeitamente uma idéia que vive latente dentro de mim, há muitos anos: as nossas reservas espirituais, os pobres da Terra, são as que podem salvar o mundo moderno da catástrofe total.

   Há dois ou três anos, numa fria tarde outonal em Paris, conversei longamente sobre este assunto com meu amigo espanhol Luis Racionero. Consumimos duas garrafas de um tinto francês excelente e seguimos finalmente cada um por um lado, sem convencer o outro. Ele sustenta que as reservas espirituais do Oriente, que eram uma esperança para o Ocidente esgotado e dividido espiritualmente, estão se perdendo rapidamente, devido ao desenvolvimento econômico da Ásia. Ele desenvolve a idéia de modo exaustivo e com muita agudeza e graça em seu recente livro, Oriente y Occidente, publicado pela Anagrama, em Barcelona.

   Para mim, o tema não se reduz às filosofias e à intuição transcendental da Ásia. Vou muito mais além. Creio na África. Creio nas Américas, creio nos asiáticos, nos europeus. Creio na condição humana de qualquer pessoa, seja um esquimó ou um dos primeiros cem milionários do mundo. Apesar de todas as provas em contrário, creio que o ser humano é inocente e não merece ser condenado.

   Creio no ser humano pequenino, individual, desnudo, impaciente, ignorante, torturado e terno que, afinal de contas, somos todos nós.

   Em compensação, perdi totalmente a fé na política, nos políticos e nas ideologias. Qualquer sistema, por lei, se transforma a curto ou a longo prazo num eixo de poder e imediatamente se cerca de todos os mecanismos de controle e repressão imprescindíveis para se manter erecto, vertical, autoritário, intocável e intocado. Estou convencido de que qualquer sistema político ou ideológico - além de suas intenções e realizações iniciais - se transforma em máquina trituradora implacável.

   Felizmente, não sou dotado - como meu amigo Racionero - para teorizar sobre o assunto. Não sou um teórico nem um sociólogo. Suspeito que não sou sequer um pensador, se é que ainda existe esse ofício neste planeta coitado. Sou um simples ser humano, com um coraçãozinho e com uma capacidade de observação bastante aguçada por meu ofício de jornalista e escritor.

   Estou convencido de que o discurso político, em sua essência, é exatamente o mesmo desde que na horda selvagem houve um indivíduo mais raivoso e mais astuto que o resto. Num ímpeto de fúria, o tipo matou a pauladas três ou quatro congêneres. Rugiu um pouco para atemorizar os outros e assim forçá-los a que o adorassem e trouxessem os melhores alimentos e as melhores damas. Para reforçar mais seu papel, sentou-se em uma pedra alta e obrigou os outros a olhar para cima. Assim os fez acreditar que ele era mais alto, maior e mais poderoso. Depois, continuou inventando e estabelecendo rituais, cerimônias e mecanismos para aumentar sua auréola. Isto aconteceu numa caverna há milhares de anos, pela primeira vez. Repete-se desde então, e hoje continua acontecendo nos palácios de governo do mundo inteiro.

   Repito que não sou um teórico. Sou um simples ser humano. Mais um, que detesta o imbecil que agarra o garrote na mão, sobe ao trono e se alimenta com sua própria arrogância e soberba.

   Por isso, estou convencido de que a Humanidade em algum momento ingressará em outra fase de desenvolvimento. A natureza do ser humano é marcada pelo amor e a compaixão. Não pelo ódio nem pelo rancor. Os sistemas políticos sustentados em eixos de poder que dividem a sociedade em governados e governantes não podem de nenhum modo ser eternos porque se baseiam na violência.

   As reservas espirituais dos países mais pobres, da gente mais simples, são, cada dia mais, um paradigma certo de como se pode viver com um pouco de justiça, serenidade e compaixão. Com um equilíbrio de dar e receber.

   O Brasil, por exemplo, é um país imenso. Não só geograficamente, mas culturalmente. Em tudo: música, cinema, literatura, teatro, visualidade, religiosidade. É um país fabuloso e ao mesmo tempo desconhecido além de suas fronteiras. Muito poucos imaginam o enorme potencial cultural e espiritual do Brasil. Para a maioria dos cubanos, o Brasil é sinônimo de telenovelas hipnóticas. E nada mais. E suspeito que, até para os brasileiros, seu país é um enigma. Um paulista pouco ou nada sabe do Nordeste. É o mesmo que acontece no México, na Espanha e na França. E até em Cuba - muito menor - o desconhecimento separa e distancia os habitantes do oriente e do ocidente da ilha. Os orientais são chamados depreciativamente de ''palestinos'', como sinônimo dos sem-terra, que vagam pelo país em busca de casa e trabalho.

   Quero crer que essas ignorâncias se apagarão pouco a pouco. E creio que ganhamos terreno. Hoje se viaja muito mais. Há mais comunicação de todo tipo. E só essa comunicação horizontal, direta, entre as pessoas, é o que nos possibilita escolher o mais conveniente e entender que temos mais semelhanças do que diferenças e não devemos sentir apreensões ante o diferente de nós.

   Naquela noite, caminhando pela praia de Fortaleza, ouvindo o rumor do Atlântico, conversando com alguns amigos nordestinos, meio embriagados como eu, não me senti estranho nem distanciado. Não pensei que estava fora de casa. Me senti muito bem e entrei na água fria e escura. Nadei um pouco. Me esvaziei de tanto álcool e disse para mim: Somos alegres e selvagens! Que bom, vale a pena viver assim!

©Pedro Juan Gutiérrez

 

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