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  Entrevista con Bravo!, de Brasil  
 

Cuba si, Cuba no

Pedro Juan Gutiérrez, a figura mais talentosa da nova e rebelde literatura cubana, revelase-em Trilogia suja de Havana um escritor apaixonado que fala da Cuba real

JEFFERSON DEL RIOS
Bravo!, Brasil
Sept/1999


   Come aquela fumaça já tão clichê dos Cohiba e Romeo y Julieta, outros estereótipos turvant a imagem de Cuba. Sem esbarrar em Fidel e na saturada imagem de velhos carros americanos, alguém precisava dizer algo novo. Pedro Juan Gutiérrez disse. Dcscrevendo sua vida, errática e com muito sexo, ele surge com Trilogia Suja de Havana, relatos na primeira pessoa que acabaram por adquirir a densidade de um romance em que o agressivo e o delicado se alternam e se completam em ritmo perfeito. Impulso rebelde íntegro, que ele justifica ao retratar o país do racionamento que gerou uma economia paralela em que — do rum às jineteras (o apelido dado às prostitutas) — prosperam as pequenas trangressões. Não é um panorama bonito, mas a energia do escritor, colocando-se corno personagem de si mesmo en meio ao turbilhão, impôe-se como lireratura da melhor qualidade. O livro é estruturado en capítulos curtos e autônomos, como uma sucessão de crônicas da vida diária nessa cidade esplendorosa e sofrida. Como Gutiérrez narra a si mesmo com desenvoltura nos meandros da malandragem — e como não se considera vítirna nem se perde ern ressentimentos políticos —, ele tem tempo para os prazeres da bebida, da amizade e dos desabusados jogos eróticos. Essa voz poderosa — nào é única no país (ver quadro seguinte) — traduzida em nove países será lançada no Brasil, em novembro, pela Companhia das Letras. O escritor falou em entrevista esclusiva a BRAVO! de Estocolmo, a caminho da Alemanha e Espanha. antes do regresso a Havana. Contornando o risco da impessoalidade do fax, ele surpreende, sempre coloquial e caloroso, ao falar de sua obra, de literatura e dessa Cuba de veias abertas.

   BRAVO!: Que movimento de vida o levou a criar esta obra tão forte, violenta e coloquial?

Trilogia suja de Havana, Companhia das Letras    Pedro Juan Gutiérrez: Trilogia é um livro de catarse. Aproximadamente em 1990 entro numa crise pessoal, e, ao mesmo tempo, o país entra também em crise. Se danaram muitas coisas ao mesmo tempo; e ou eu me suicidava ou fazia algo. Comecei a beber rum e a escrever todos esses contos baseado no que acontecia a mim e em redor. É muito autobiográfico. Mais do que eu gostaria.

   Qual a reação do meio literário e oficial cubano, dos seus amigos e conhecidos descritos no livro?

   Não se conhece o livro em Cuba. No se distribui. Quase ninguém leu. Por enquanto, continuo membro da Associação de Escritores. Apesar disso, em menos de um ano, está editado na Espanha e Itália, e se preparam edições no Brasil, Estados Unidos, França, Inglaterra, Suécia, Alemanha e Portugal.

Sua biografia tem coincidências com a de escritores aventureiros, como Jack London, Henry Miller e Charles Bukowski. Pode-se falar – como fez a crítica espanhola – de influência deles em sua literatura?

   Desde os 7 anos de idade passava horas metido na biblioteca de Matanzas, minha cidade. Aos 13 escrevi meu primeiro poema a uma namorada. Aos 18 decidi que a única coisa que queria na vida era ser escritor. Aos 20 decidi que, para ser escritor, tinha de ler muito, viver intensamente e, sobretudo, afastar-me dos demais escritores, filósofos, artistas e pedantes que pululam pelas faculdades de artes e letras. Tinha de aprender sozinho. Miller e Bukowski não são conhecidas em Cuba. Conheci-os há pouco mais de um ano.

   Antes da literatura, o sr. trabalhou como cortador de cana e foi soldado sapador, o que é arriscado. Poderia falar dessa experiência?

   Meu serviço militar obrigatório se estendeu por quatro anos e meio, de 1966 a 1971. Desse tempo, estive dois anos e meio cortando cana como um animal nos campos de Camagüey. O resto do tempo em manobras militares derrubando bosques com explosivos e estudando para pedreiro construtor. Terminei meio louco nas mãos de psicólogos freudianos por dois anos, o que me deixou mais louco ainda, até que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, que me tirou de toda aquela confusão. Quando ela me deixou, voltou a confusão.

©MARIANNE GREBER, VBK (vbk@nextra.at)   Durante esse período de anonimato, que atividades ou relações intelectuais o sr. mantinha?

   Escrevia muitíssimo e escondia tudo, não mostrava. Só poemas de amor, um pouco ridículos, para minhas namoradas. Hoje em dia guardo uns seis ou sete livros de poemas e contos e dois ou três romances que algum dia queimarei. Releio às vezes esses livros para caçoar de mim mesmo e, sobretudo, recordar o trabalho e o tempo que levei para aprender a escrever mais ou menos.

   No início de sua vida literária houve algum concurso, prêmio ou alguma ajuda especial?

   Não tenho prêmios, nem me agradam os concursos e não tenho o espírito competivivo. Don’t compet, play é o meu axioma. Tenho muitos amigos que me querem e aos quais quero muito e que me ajudam e me apóiam.

   Como o sr. definiria sua poesia, tanto a escrita quanto a visual?

   Minha poesia escrita se parece com a minha narrativa, e talvez se possa encontrá-la editada em Buenos Aires. Em Cuba também não a conhecem. A visual é um jogo algo inconsciente. Totalmente absurdo. Nunca se sabe por que se joga, e eu também não sei porque faço poesia visual.

   O sr. também se dedica à pintura e à escultura. Qual das artes o interessou primeiro?

   Veio tudo junto. Quando menino eu lia toneladas de gibis, de Super-Homem até Luluzinha. Segundo Ariel Dorfman e Armand Mattelart, isso me fez mal, mas ao mesmo tempo me deixou um gosto subconsciente muito forte de misturar sempre o visual e o verbal. Texto e imagem.

   Mas há algum estudo teórico ou alguma prática de artes plásticas em sua vida?

   Aos 13 anos quis entrar na Escola de Artes Plásticas de Matanzas, que era muito boa. Meus pais disseram não porque isso era “coisa de maricones”. Aos 16 tentei ingressar na Escola Nacional de Arte e tinha uma bolsa, mas, quando o diretor soube que eu estava no período do serviço militar, me chamou e me disse que eu fosse servir a pátria. Não esqueço o sacana. Mas o meu estilo é abstrato, faço textura e experimento materiais.

   Pode-se falar de influência do cinema em seus romances?

   Talvez o cinema tenha influenciado: centenas de filmes americanos dos anos 50 e centenas de filmes europeus dos 60. Quando cheguei aos 25 anos, já havia visto todo o melhor cinema. Hoje em dia, 98% dos filmes me parecem lixo.

  Trilogia de Havana Suja revela uma energia rebelde e ao mesmo tempo harmonia de estrutura e linguagem. Como se deu a elaboração dessa escrita? 

   Na realidade, são três livros, e foi doloroso escrevê-los, entre 1994 e 1997. Quando pensei que havia terminado o primeiro, vejo que continuo acumulando mais anotações e mais idéias; e escrevo o segundo volume: Nada que Hacer. Quando acreditei que já havia me livrado dos fantasmas, descubro que não, e então escrevo Sabor a Mi. Por fim, terminei, e, em 1998, saiu em Barcelona e Roma.

   É um livro sem nenhuma amabilidade ou concessão política à atual realidade cubana.

   Não tenho motivos para ser amável nem fazer concessões. Creio que a literatura é algo demasiado sério. Se você vai ser amável e fazer concessões, é melhor ir vender tomates no mercado e ser amável com os fregueses. O escritor, no fundo, é um tipo amargurado, confundido, sem explicações para nada, e dá no mesmo se o compreendem ou não. Se cai bem ou mal. Se é simpático ou antipático. Se tem dinheiro ou se é um morto de fome. Se você não é assim, você é um palhaço. ©MARIANNE GREBER, VBK (vbk@nextra.at)

   Pode-se dizer que a repercussão da obra de Senel Paz, o autor de Morango com Chocolate, tornou seu caminho literário mais fácil?

   Não conheço Senel Paz. Não conheço quase ninguém no mundo artístico cubano. E, sobretudo, quase ninguém me conhece.

   Seu romance fala da Cuba atual, enquanto Guillermo Cabrera Infante continua, com grande audiência, na nostalgia e no ódio ao regime. Até que ponto o seu caminho tem a ver ou se opõe ao dele?

   Cabrera Infante tem um romance maravilhoso, Três Tristes Tigres. Gosto muitíssimo. O problema é que 11 milhões de cubanos vivem na ilha e 2,5 milhões fora. É dramático, um abismo não só físico, mas emocional, cultural, intelectual. É de esperar, portanto, que os pontos de vista não sejam os mesmos.

   Os leitores brasileiros conhecem mais os escritores cubanos consagrados, como Lezama Lima, Cabrera Infante, Alejo Carpentier, Nicolás Guillén e, de certa maneira, Miguel Barnet. Qual sua opinião sobre eles?

   Acredito que só há dois escritores absolutamente imprescindíveis na literatura cubana do século 20: Alejo Carpentier e José Lezama Lima. Creio mais ainda: me parece que são imprescindíveis para a literatura universal. Os demais podemos apagar de uma penada e não acontecerá nada.

   Sem esquecer Severo Sarduy e Reynaldo Arenas, como o sr. vê a produção dos mais novos: Abilio Estévez (autor de Tuyo Es el Reino), Joel Cano (de El Maquillador de Estrellas – publicado com elogios na França) e Leonardo Padura Fuentes (de Máscaras)?

   Esta lista está muito boa. Gosto. Creio que você está mais atualizado que eu.

   O sr. continua trabalhando como jornalista em Cuba?

   Não tenho trabalho em Havana. Fui jornalista durante 26 anos, desde os 22 anos. Quando saiu Trilogia Suja de Havana, estive três meses na Europa apresentando o livro, e, na minha volta, em janeiro passado, me chamaram da revista onde trabalhava e disseram que tinha me demorado muito fora e que não tinha permissão, algo assim, não recordo bem, e me deixaram sem trabalho. Agora só escrevo e pinto.

   Quais os seus atuais projetos literários?

   Em outubro próximo, lançarei um romance intitulado El Rey de la Habana na Espanha e na Itália. E escrevo outro romance chamado Animal Tropical, que deve estar pronto no próximo ano.

©MARIANNE GREBER, VBK (vbk@nextra.at)   Para terminar: o que um escritor do Caribe está fazendo na Suécia, longe de casa.

   Faço amor duas ou três vezes por dia com minha namorada sueca, à tarde bebo vodca ou cerveja e fumo uns bons charutos que trouxe de Havana. Fico na varanda dando baforadas e não penso em nada. Isto me agrada muito: não pensar em nada.

 


     
       
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