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  Entrevista con Correio Braziliense, de Brasil  
 

Escritor tropical

Autor de Trilogia Suja de Havana e O Rei de Havana, Pedro Juan Gutiérrez conta como escreve e por que escreve. O Pensar publica com exclusividade uma crônica do escritor cubano que a cada dia aumenta sua legião de fãs em todo o mundo

SÉRGIO DE SÁ (Enviado especial)
Correio Braziliense, Brasil
Brasília, domingo, 01 de april de 2001

Correio Braziliense, Brasil

Entrevista
Resenha
Biografia
Facões versus palavras (Especial para o Correio)
Bibliografia

Pedro Juan Gutiérrez (©MARIANNE GREBER, VBK [vbk@nextra.at])

HAVANA — Uma rua do bairro de Centro Habana, paralela ao Malecón, à beira-mar. O elevador está quebrado (há mais de ano) e a subida, então, é feita por uma escada estreita. Oito andares até o terraço, ligeiro mas cortante cheiro de mijo. Não é possível ver detalhes porque está escuro, a mão vai tateando. Um degrau imperfeito quase torna inevitável a queda. A chegada ao terraço é feita de sobressaltos.

   E como não ser literário? Uma cidade pobre, um escritor misterioso, uma literatura forte, pungente.

   Ao entrar no apartamento, Pedro Juan Gutiérrez está do lado de fora, ainda ensolarado. Está com a mulher e uma amiga italiana. Breve apresentação, olhar atento na direção do mar e das ruínas de Havana. E logo a entrevista formal vai começar. Fama? “O bom de ter popularidade é que tenho um pouco mais de dinheiro”, resume o autor da Trilogia Suja de Havana, escrita “de maneira catártica”.

   Falar da vida é importante para compreender a obra. Aquiesce: “A Trilogia Suja é tremendamente, excessivamente autobiográfica.” Como todo o resto, mesmo se ele em poucas ocasiões não se coloca como personagem na ficção. Lembra uma história da TrilogiaAs Portas de Deus — em que “há coisas descritas como ocorreram exatamente na realidade”. Outras podem ser mesmo só ficcionais, como Com Basilio na Mesma Cela. “Muito do meu trabalho é ir mesclando a ficção com a realidade de tal maneira que não se vejam as costuras.”

   Pois uma das personagens desta tarde tropical é o mensageiro da DHL, suado, que sobe os mesmos oito andares, depois de ter certamente odiado a chegada de mais uma correspondência para Pedro Juan Gutiérrez. Chega às mãos do escritor a Trilogia Suja transformada em livro de bolso pela editora espanhola Anagrama. Não se esconde o orgulho. Outra personagem é a vizinha do quinto andar, com quem Gutiérrez troca duas palavras quando estamos “baixando” para a rua. Sim, os moradores desse prédio estranho. Formam comunidade curiosa: cirurgião, bêbado profissional, retardado mental, policiais, vendedor, velhos (não há espaço para correção política). Para um praticante do budismo, não parece ser um cenário intimidador. Escrever se transforma em necessidade, e pouco importa estar acima ou abaixo.

   Vamos tomar cerveja. E não rum, como poderia ser o mais óbvio quando se pensa em Cuba. Nem fumamos charuto, para decepção dos amigos. San Lazaro, Galiano. Gutiérrez fala dessas ruas com familiaridade. Afinal, são 14 anos vivendo no bairro. O olhar enxerga com perfeição os contornos de todas as figuras. Quem é o quê. Quem faz o quê.
Escrever é obsessão, e rigor alemão, diz o escritor. “Quando estou escrevendo, sou muito disciplinado. Me levanto de manhã, escrevo à mão até uma, duas da tarde. E depois trato de fazer exercícios, vou nadar na praia. Para mim, é importante fazer exercícios. Depois, bebo um trago de rum. Passo os textos à máquina, um dia à mão, outro à máquina. Se tenho muito material, escrevo, escrevo, escrevo.” Gutiérrez mostra as anotações para contos e romances. São abundantes, um variado quebra-cabeça. Tem milhares de poemas guardados, contos, um romance pronto e um romance de espionagem internacional a meio caminho.

   As referências literárias que aparecem na conversa são Mark Twain, William Faulkner, Herman Hesse, Ernest Hemingway, Alejo Carpentier, García Márquez. “Lia tudo como um alemão, de ponta a ponta. Até que não tivesse todos os livros, não começava a ler”, lembra. As comparações com Charles Bukowski ou Henry Miller não lhe dizem nada. Só soube da existência de Bukowski depois de publicada a Trilogia Suja. “Tenho aí um livro de Henry Miller, Trópico de Capricórnio, do qual não gosto.” Em função do filme-biografia Antes do Anoitecer, Reinaldo Arenas aparece no papo, e desemboca no exílio e da publicação tardia em Cuba.

   Trilogia, O Rei de Havana e Animal Tropical (inédito no Brasil) não foram lançados em Cuba. Circulam de maneira clandestina, de mão em mão. Tem gente que telefona. Uma cubana que vive na Espanha o reconhece sentado no bar e não resiste: “Trilogia Suja de Havana”, diz, simplesmente e de supetão, identificando a face com a obra.
Havana é cidade encantadora, de um charme literário. Para Gutiérrez, seria muito difícil viver em outro lugar. Ainda que a União de Escritores e Artistas de Cuba não tenha gostado dos livros que leitores no mundo inteiro adoram. Aliás, atenção: o próximo trabalho está a caminho. Dezenove contos reunidos sob o título O Insaciável Homem-aranha.


Entrevista

Correio Braziliense, 1 de april de 2001

Correio — Havana é realmente como você a descreve?

   Pedro Juan Gutiérrez — É a realidade desta área da cidade. Se você caminha por Centro Habana e La Habana Vieja, se dá conta de que há muita pobreza, miséria, prostituição. Minha literatura se desenvolve nesta região. E não me interessam outros lugares, por uma razão literária. Não me interessa fazer sociologia, antropologia, história, jornalismo. Me interessa fazer literatura, ficcionalizar a realidade. E a literatura se faz no conflito. Me interessam as pessoas que vivem na beira do abismo, que têm todo dia que achar um dólar para sobreviver, e que buscam esse dólar seja como for.

   Se tem que se prostituir, se prostitui. Se tem que vender um pouco de maconha, vende. Se tem que vigiar o policial na esquina para vender o colar arrancado de uma turista, vende. A moral e a ética do pobre são muito flexíveis, muito pragmáticas. Portanto, são pessoas que vivem sempre no limite. E há sempre muito antagonismo, violência, agressividade, problemas. Meus livros são uma exploração desse mundo.

   Correio — Esse mundo te conhece?

   Gutiérrez — Me misturo muito com as pessoas do edifício, são minhas amigas. Um bêbado que vive num andar aqui embaixo é meu amigo, conversamos. Mas tomo cuidado para que ninguém saiba que sou escritor. Nesse sentido, é bom que meus livros não sejam publicados aqui. As pessoas continuam me conhecendo como “o jornalista do terraço”, como “Pedro, o careca”.

   Correio — E política, nem pensar?

   Gutiérrez — Prefiro não falar de política, mas de literatura, da minha obra. Se se quer fazer uma leitura política dos meus livros, pode-se fazer. Mas tenho muito claro que não estou fazendo política. Estou fazendo literatura. Não me interessa fazer política porque ela é circunstancial, conjuntural. E a literatura deve ser mais universal, atemporal.

   Correio — Por que o salto da poesia para a prosa?

   Gutiérrez — A poesia é de algum modo apontamento, como um esboço para a Trilogia Suja. E foram muitos anos e muito esforço para chegar a escrever a Trilogia. As pessoas dizem que pegam o livro e lêem rápido, não conseguem parar. Se elas soubessem o trabalho que deu escrever desse modo... Para mim é importante que a literatura seja divertida, amena, que seja um entretenimento, que tenho um pouco de tudo. A literatura não deve ser chata, não deve ser um sofrimento para o leitor, ao contrário. Talvez eu tenha aprendido isso nos quadrinhos, talvez no jornalismo.

   Correio — Aprendeu também com algum escritor em particular?

   Gutiérrez — Há dois escritores que para mim são fundamentais: Kafka e o argentino Julio Cortázar. São sagrados.

   Correio — Mas Kafka não é exatamente divertido.

   Gutiérrez — Não é que ele seja divertido. Mas li Kafka desesperadamente porque ele consegue pegar esse copo (aponta o que está na mesa) e começa a fazer literatura com ele. E faz literatura, literatura, literatura. É um pouco o que faz Cortázar também. Genial. Li muito também os narradores norte-americanos. Aos 15, 16 anos, li Bonequinha de Luxo, de Truman Capote, e fiquei assim... (faz cara de estupefação). E me disse: vou escrever assim algum dia. Capote parece que não está fazendo literatura. Fiquei com isso na cabeça durante 30 anos.

   Correio — Há solução para este mundo tão real?

   Gutiérrez — Gosto muito mais da filosofia budista do que da filosofia cristã. Me parece muito mais humana. O mundo necessita de compaixão. Cada dia é mais terrível a quantidade de ódio, rancor, agressividade, violência, problemas que existem no mundo por razões absurdas. Por isso detesto falar da política e dos políticos, porque é como se eles fossem especialistas em colocar mais ódio e rancor na sociedade. E creio que estamos precisando é de amor, tolerância, um pouco de generosidade, tranqüilidade. Pelo menos devemos saber respeitar os outros. No fundo da minha literatura talvez exista uma necessidade de mostrar para as pessoas: este é o mundo em que estamos vivendo. E ele é terrível.


Resenha

Pedro Juan Gutiérrez - O Rei de Havana  Companhia das Letras) O Rei de Havana, o segundo livro de Pedro Juan Gutiérrez, saiu recentemente no Brasil. Foi escrito em 1998, num transe, diz o autor. “Foi uma loucura.” É ficção (muito) baseada na realidade. Em se tratando do mesmo homem que escreveu Trilogia Suja de Havana, não poderia ser diferente. As duas personagens principais, Rey e Magda, existem. Assim como no livro, Magda vende amendoim pelas ruas da cidade. “Vejo eles todos os dias neste bairro”, revela Gutiérrez. A impressionante cena final, portanto, não ocorreu de fato (e quem ler entenderá).

   ”Às vezes convidava Magda para uma comer uma pizza e ela me contava suas histórias. Reynaldo, eu o observei durante anos. Um dia me dei conta de que tinha um romance na mão. Pensei num conto, mas não. Desenhei a história em uma semana e escrevi em 57 dias”, detalha o autor.

   A qualidade mais evidente da narrativa do cubano é a agilidade, ajudada por uma tradução sem percalços e com soluções interessantes para vocábulos intraduzíveis. Para traçar alguma relação com escritores brasileiros contemporâneos, parece inevitável lembrar do extremo realismo de Rubem Fonseca e da errância das personagens de João Gilberto Noll.

   Sim, é preciso ter estômago. Esqueça nosso mundo pequeno-burguês, organizado, cheiroso, consumidor. Em poucas ocasiões, a ficção esteve tão próxima da intensidade da vida na miséria. O texto está estreitamente atrelado ao caos, às intempéries, às vicissitudes do cotidiano de uma certa Havana (onde não há lugar para esses vocábulos supostamente inteligentes). Não há tempo a perder. Rey não quer ter passado, memória. Leva a vida aos trancos e barrancos. Lição: Faça bom proveito, esgote todas as possibilidades do que está ao alcance, nem se importar com as conseqüências. Assim, O Rei de Havana se deixa ler velozmente. E se não traz novidades de estrutura narrativa, pode ser instrutivo do ponto de vista sexual. Nada mais legítimo.


Biografia

Pedro Juan Gutiérrez (©SÉRGIO DE SÁ)
Pedro Juan Gutiérrez nasceu em Matanzas, Cuba, em 1950. Família pobre, teve de fazer um pouco de tudo para ajudar em casa. Por exemplo, recolher papel de picolé — para colar um no outro e passar adiante aos vendedores de frutas. Antes, quis ser pintor, mas o pai não deixou, “porque era coisa de maricones”. Obviamente, não seguiu estritamente a ordem do pai. Usa a pintura como hobby lucrativo, vamos dizer assim. Vende um quadro ou outro de vez em quando. No momento, participa de exposição coletiva em Regla, cidade vizinha à Havana.

   De férias em Pinar del Rio por volta de 1957, descobre duas coisas importantes. Primeiro, as histórias em quadrinhos (“a pequena Lulu”). E lia todos os tipos. “Tenho consciência de que isso influencia os diálogos, a forma como escrevo.” Ao mesmo tempo, encontra uma biblioteca maravilhosa. “Me dou conta de que entrar lá é como entrar em outro mundo.”

   A vida era dupla. De um lado, literatura, quadrinhos e também cinema: norte-americano (antes da revolução), francês e italiano. De outro, trabalho pesado: cortador de cana-de-açúcar, quatro anos no Exército, instrutor de caiaques.

   Com 20 e poucos anos, mudou-se para Havana, onde estudou jornalismo, exercido durante 26 anos. “De certo modo, sou um privilegiado.” Pôde viajar. Esteve no Brasil, em 1988. A paixão pela poesia visual o fez amigo de Philadelpho Menezes, poeta e professor universitário paulista morto ano passado em acidente de carro.

   Em outubro de 1998, foi a Barcelona lançar Trilogia Suja de Havana. Tinha 10 dólares no bolso e a passagem de avião. Quando voltou, estava desempregado. Irônico: “Prescindiram do meu trabalho.” Desde então, apenas escreve e pinta.

   Mas a decisão havia sido tomada muito antes, entre o devaneio e o pragmatismo. Escrevia poemas em segredo. E aos 18 anos, “não me pergunte por quê”, já tinha decidido ser escritor. “E para isso não podia estudar literatura.” Porque o estudo abafaria a criatividade. “Queria ter muitas mulheres, conhecer muita gente, viajar, viver intensamente, me meter por todos os lugares, ver como vive todo mundo. E ler à minha maneira os escritores que verdadeiramente me interessam.”


Facões versus palavras
Pedro Juan Gutiérrez
Especial para o Correio

Pedro Juan Gutiérrez (©MARIANNE GREBER, VBK [vbk@nextra.at]) HÁ ALGUNS anos estive uns dias percorrendo as montanhas de El Escambray, no centro da ilha de Cuba. Uma tarde cheguei a um pequeno povoado. Seus habitantes se dedicam sobretudo a trabalhar nos bosques e cafezais das redondezas.

   Faziam festa. Celebravam algo. Não lembro o que celebravam mas havia alegria no ambiente, música, comida, baile, bebida. Recém começava a pândega quando cheguei. Tenho uma grande flexibilidade para me adaptar às circunstâncias e me esforço ao máximo para pecar mais e melhor. Assim, me dediquei a festejar eu também.

   À medida que os barris de aguardente esvaziavam, os pistões cerebrais daqueles camponeses aceleravam mais e mais. Em Cuba se diz que “o rum subiu à cabeça”.
E de imediato começaram as brigas. Anoiteceu, e mais e mais brigas. Só que não eram com jabs no fígado e ganchos no queixo. Não. Nada tão inocente. Eram a facadas.
Foi sangüinário. Aí por volta de dez da noite, uma amiga teve uma crise asmática e a acompanhei ao hospital, pequeno, situado no centro do povoado. Três médicos e cinco enfermeiras. Não puderam atendê-la.

   Os médicos não conseguiam costurar feridas e mandar os casos mais graves para um hospital maior, em uma cidade da planície. Todos estavam esgotadíssimos. Fazia horas que suturavam feridas. Dez ou doze esperavam sua vez, ensangüentados como se fossem carniceiros. Parecia um filme de terror.

   No dia seguinte, de manhã cedo, passei de novo em frente ao hospital. Umas mulheres esfregavam o piso com água abundante. A água era vermelha, como se se tratasse de um matadouro de gado e não de um hospital.

   Alguns pensarão que exagero ou que sou mórbido. Mas não. Nem um nem outro. Gosto de ser positivo. Estou convencido de que só podemos transitar por esta aventura tremenda e terrível que é a vida com um pensamento construtivo e positivo. Do contrário não vale a pena.

   Um nativo, aflito, tentou justificar seus compatriotas: “É que tem muito tempo que não tínhamos festa aqui, e se acumularam muitos rancores e ciúmes. Aí você sabe, povo pequeno, inferno grande”.

   ”Quer dizer que os rancores e ciúmes acumulados se resolvem a facadas?”, perguntei a ele.

   E ele me respondeu: “Quando as pessoas são de poucas palavras... logo partem para o tapa”.

   Certo. Aquele homem tinha razão. O álcool nos desinibe e então nos mostramos como somos. A besta salta e ruge. Mostramos o que estava escondido há muito tempo.
Em outro lugar, talvez não houvessem passado da discussão alterada e vociferante, ou tivessem ido escutar boleros e tangos tristes quando, no meio da bebedeira, alguém disse a seu amigo que efetivamente sua mulher o trai com um vizinho há anos. E que ele é o único no povoado que não sabe. E que, além disso, por trás, todos o chamam de “O veado”. Nesse caso, alguns iriam, altivos e despeitados, propor o divórcio. Enfim, cada um reage como pode. Se a reserva de palavras e idéias é mínima, então se recorre cegamente à brutalidade do facão. É a única “solução” à mão.

   Não gosto de julgar nem tirar conclusões didáticas e moralistas sobre o que acontece ao meu redor. Talvez para seguir o conselho bíblico: quem com ferro fere com ferro será ferido. Assim deixo apenas anotada aquela história de aguardente e sangue, de paixões, com fúria abundante e palavras escassas.

· Tradução: Sérgio de Sá


Bibliografia

Ciclo de Centro Habana

Poesia

   La Realidad Rugiendo
   Pinar del Río, 1988

   Espléndidos Peces Plateados
   Buenos Aires, 1996

   Fuego Contra los Herejes
   Buenos Aires, 1998

 

Prosa

   Trilogia Suja de Havana
   São Paulo, Companhia das Letras,
   358 páginas. Tradução de José Rubens Siqueira.
   R$ 32,00

   O Rei de Havana
   São Paulo, Companhia das Letras,
   224 páginas. Tradução de José Rubens Siqueira.
   R$ 26,00

   Animal Tropical
   Barcelona, Anagrama, 295 páginas

   Melancolía de los Leones
   Havana, Ediciones Unión, 131 páginas


     
       
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