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Entrevista Pedro Juan Gutiérrez
O escritor cubano que conta mulheres ás
centenas revela técnicas de conquista, fala sobre a
censura a seus livros e sobre sexo, muito sexo.
| KIKO NOGUEIRA
e HELENA FRUET
Playboy
Agosto 2001
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Com o embargo dos Estados
Unidos e, nos anos 90, o desmanche da União Soviética,
a fome foi incorporada ao dia-a-dia. Privado de quase tudo,
o cubano se diverte a valer com o sexo. Neste cenário
desolador, surgiu um dos nomes mais interessantes da literatura
latino-americana: Pedro Juan
Gutiérrez. Aos 51 anos, ele é autor de três
livros: Trilogia
Suja de Havana, O
Rei de Havana e Animal
Tropical. Os dois primeiros foram publicados em mais de
vinte países (no Brasil, pela Cia.
das Letras) e o último acaba de sair na Espanha.
Ainda que não fale abertamente de política em
seus romances, se faz presente de outras maneiras. Numa Havana
miserável, sensual e caindo aos pedaços, seus
personagens bebem rum, fumam maconha, dão pequenos golpes,
fogem para Miami, se desesperam — e fazem sexo sem parar.
A crítica
americana o aplaudiu. O jornal The New York Times
comparou-o a gente como Henry Miller, Jean Genet
e, acima de todos, o fauno beberrão Charles Bukowski.
“Um escritor exuberante e macho”, disse o crítico
do Times. “Gutiérrez não
apenas faz seu narrador acreditar que o sexo é a única
razão para viver, como faz o leitor pensar que se enganou
ao imaginar que houvesse algo mais importante.” Seu
estilo foi definido como “realismo sujo”. Ele
já foi vendedor
de sorvete, cortador de cana, professor de teoria marxista,
especialista em explosivos
do exército e quase cafetão. O último
emprego foi de jornalista.
Há três anos, seu direito de trabalhar foi cassado
pelo governo. Gutiérrez viajou à Espanha para
promover a Trilogia. Quando voltou, demitiram-no
da revista em que escrevia, sob a alegação de
ter abandonado o posto. Essa é, obviamente, a versão
oficial. “Fui banido da profissão”, diz.
Casado pela segunda vez,
quatro filhos (o último, com a vizinha de apartamento),
mais de duzentas mulheres no currículo (em suas próprias
contas), Gutiérrez vive numa cobertura detonada no
Malecón, o calçadão barra-pesada de Havana.
É ali que colhe suas histórias — a maioria,
diz, absolutamente verdadeiras, vividas por seus amigos e
por ele próprio. Apesar da miséria opressiva
que o cerca, ele afirma que só vai embora se o obrigarem.
“Havana é minha matéria-prima.”
Gutiérrez viaja
para promover suas obras. Durante sua estada no Brasil, conversou
com Kiko Nogueira e Helena Fruet, redator-chefe e repórter
da revista Viagem e Turismo, para a PLAYBOY.
Conta Nogueira:
“Nosso primeiro
encontro aconteceu no hall do hotel Caesar Park, no centro
de São Paulo. Gutiérrez apareceu com um paletó
branco com listras azuis, barato. Reclamava do barulho que
faziam os jogadores de futebol que estavam concentrados ali.
Meio paranóico, queixou-se também que seu colega,
o escritor espanhol Manuel Vásquez Montalbán,
comunista e fidelista, o estava espionando no bar. No dia
seguinte, num flat, estávamos todos mais relaxados.
Gutiérrez fumava um charuto, coçava a careca,
tomava água e parecia contente com a vista da janela.
Para a sessão de fotos, pediu uma camiseta de manga
curta, para deixar à mostra a tatuagem
no braço. Levei quatro, para que escolhesse uma. No
fim, ele não devolveu nenhuma delas. À essa
altura, já devem ter sido trocadas por rum, mulher
ou até mesmo comida numa quebrada qualquer de Havana”.
PLAYBOY — Em Trilogia
Suja de Havana, o narrador, que também se chama
Pedro Juan, faz o diabo para sobreviver: vende latas velhas,
trafica maconha, cria pombos para terreiros de umbanda, distribui
fígado humano para restaurantes, pensando que é
de porco. É tudo verdade?
GUTIÉRREZ —
Aquilo é uma mistura de realidade e ficção.
Eu não lidava com latinhas nem com fígado, muito
menos humano. Vendia canecas, isqueiros, bonés. O livro
foi escrito nos anos 90, período difícil para
mim e para o país. Eu estava no meio de uma situação
horrorosa. Tinha três filhos, dois dentro do casamento
e um fora. Ao mesmo tempo, Cuba mergulhou em uma crise. Em
setembro de 1990, a imprensa sofreu uma intervenção.
Revistas e jornais foram fechados. Das 157 publicações
que havia no país, não restam mais do que quatro
ou cinco. Em 1991 começamos a passar fome. Não
havia água, gás, sapatos, nada. Então
acumularam-se duas crises: a cubana, dura, e a minha, ainda
pior. De repente, fiquei sozinho em casa, sem uma cadeira
sequer, sem carro, sem comida...
PLAYBOY — E como
se virava?
GUTIÉRREZ —
Eu tinha alguns amigos em Buenos Aires [na Argentina],
em Bogotá [na Colômbia] e no México.
Uma dessas pessoas foi minha mecenas, que pagou a publicação
de meu primeiro livro de poemas.
Trabalhava em uma revista e ganhava um salário de 3
dólares por mês. Se comprasse 30 ovos, o dinheiro
acabava. E ainda vivia com meu filho adolescente. Pois bem.
Esses amigos iam a Cuba e morriam de pena de mim — e
eu morria de vergonha deles. Quando perguntavam o que poderiam
fazer, eu pedia que quando voltassem aos seus países
me enviassem coisas. Podia ser material de propaganda, como
bonés e camisetas com slogans, o que fosse. Eles mandavam
pacotes com canecas, isqueiros, chaveiros, porcarias que conseguiam
em discotecas e bares. Eu revendia esses objetos para ter
como sobreviver. Dava uma parte das coisas para a minha mãe,
que me ajudava a negociar e me dava comida. Minha mãe
sempre foi melhor negociante do que eu, por falar nisso. Eu
era um zero à esquerda. Ela me chamava duas vezes por
semana em sua casa e dizia: “Olha, consegui um pouco
de arroz, feijão e carvão. Leva um pouco para
você”.
PLAYBOY — Até
carvão?
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GUTIÉRREZ
— Carvão. Em Havana não havia gás
para cozinhar. Durante três ou quatro anos não
se acendia fogo. Tínhamos que cozinhar com carvão
vegetal, extraído do campo. Havia gente que esquentava
comida na cobertura dos edifícios com fogueiras
feitas de lascas de madeira. Outros se acostumaram com
comida fria. Aqueles anos foram terríveis. Foi
nesta época que comecei a escrever Trilogia
Suja. Estava com demasiada raiva, uma enorme fúria
interior. Tinha 44 anos, imerso numa crise gravíssima.
Não estava preparado para essa filosofia de ganhar
e de perder. Eu só ganhava. Tive instintos suicidas.
Não via saída para mim e nem para Cuba. |
PLAYBOY — Procurou
ajuda?
GUTIÉRREZ —
Até que tentei, mas não havia remédios,
não havia nada no país, nem aspirinas. Repito:
em Cuba, não há aspirinas! Minha fuga estava
no sexo e no álcool. Todas as tardes eu bebia pelo
menos uma garrafa de rum, fumava uns dois maços de
cigarro e fazia sexo. Muito, muito sexo, com todo tipo de
mulher. Brancas, pretas, gordas, magras, velhas ou jovens.
PLAYBOY — Seus livros
não fazem referência direta à situação
política de Cuba. Você tem medo de escrever sobre
Fidel?
GUTIÉRREZ —
Não gosto de falar de política por uma razão:
ela é circunstancial. O que hoje é branco, amanhã
pode ser negro e vice-versa. Pretendo fazer uma literatura
mais universal, atemporal. Meus livros
não contêm política, mas estão
repletos de matéria humana, de sentimentos. Em 40,
50 anos as pessoas ainda poderão ler minhas obras.
Hoje, Cuba tem um governo e amanhã pode ter outro.
Isso não interessa para meu trabalho. Pode valer para
o dia-a-dia, para a minha vida prática. Agora, de qualquer
jeito, a literatura se contamina com o ambiente do escritor,
ainda que ele não queira. Eu sempre me baseio na história
do [escritor russo Fiódor] Dostoiévski,
autor do romance Crime e Castigo. Ele o escreveu
em uma situação política tenebrosa, quando
a Rússia sofria com o czar. E mesmo assim Dostoiévski,
que vivia nesse mundo tão pesado, no subúrbio
de Moscou, escolheu não fazer um panfleto político,
mas uma novela policial, de ação. No meu caso,
não assassino os personagens, mas os coloco para trepar.
Para que se divirtam um pouco mais e para que não morra
tanta gente.
PLAYBOY — Qual é
a sensação de ser um autor desconhecido no próprio
país?
| GUTIÉRREZ
— Estou louco para que meus livros saiam lá.
Faz alguns meses, publicaram um romance meu, que se chama
A
Melancolia dos Leões. Levei doze anos para
terminá-lo. Não é um livro de realismo
sujo, como estou acostumado a escrever. É realismo
fantástico. Tem um pouco do tcheco Franz Kafka
e do argentino Julio Cortázar — para mim,
os dois maiores escritores do mundo. A capa eu mesmo desenhei.
Saiu em dezembro e está vendendo bem. E agora estou
negociando para ver se pelo menos publico alguns contos
de Trilogia Suja de Havana. Um sonho dourado
é que publiquem meus livros integralmente, que
não sejam censurados, que não façam
uma leitura política deles. Essa é questão:
há gente que só vê sexo, outros só
vêem pobreza e outros só vêem política
nas coisas. Falta a esse pessoal a inteligência
espiritual necessária para me compreender. |
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PLAYBOY — Em que
momento despertou para a literatura?
GUTIÉRREZ —
Aprendi a ler muito pequeno,
aos 6 ou 7 anos. Minha tia era dona de uma agência de
notícias. Seu escritório era lotado de livros,
revistas, folhetos, gibis. Naquela época Cuba recebia
milhares de periódicos do México e da Espanha.
Isso foi antes da revolução, nos anos 50. Eu
era viciado em histórias em quadrinhos. Lia umas 40
ou 50 por mês. Aquela mistura de verbalidade e de visualidade
foi entrando em mim de uma maneira meio subconsciente, sem
que eu me desse conta.
PLAYBOY — Alguém
orientava suas leituras?
GUTIÉRREZ —
Ninguém. Tudo estava ao meu alcance. Não tinha
quem me direcionasse. Pegava livros em bibliotecas, casas
de amigos, onde fosse. E ao mesmo tempo em que lia todos os
grandes escritores, trabalhava com meu pai vendendo sorvete
na rua. Vendia especialmente em brigas de galo, em que eram
maiores a aglomeração e os lucros. Tinha uns
12 anos. As brigas eram divertidíssimas e, nessas ocasiões,
eu ganhava mais dinheiro. Vivíamos muito intensamente
em Matanzas, perto de Varadero [a praia mais famosa de
Cuba, a 140 quilômetros de Havana]. No meio dessa
loucura, refletindo um pouco agora, a leitura era como um
escape, o meu momento de tranqüilidade, de meditação
frente a tudo, de privacidade. Era um jeito de fugir do meu
mundo de pobreza.
PLAYBOY — E quando
começou a escrever?
GUTIÉRREZ —
Assim que arrumei as primeiras namoradinhas. Tinha uns 14
anos e fazia poemas para elas. Uma delas gostou tanto e ficou
tão feliz que me dei conta de que a literatura era
um jeito de ganhar as mulheres. Quando cheguei aos 16 anos,
fui para o exército e lá fiquei quatro anos
e meio. Saí como especialista em explosivos. Se parar
de ganhar dinheiro com literatura, já sei o que fazer.
[Risos.]
PLAYBOY — Como era
sua vida nos primeiros anos da Revolução Cubana?
Você chegou a acreditar naquele projeto?
GUTIÉRREZ —
[Enfático.] Claro que sim! Nos anos 60, a
Revolução estava numa época linda, um
tempo de esperança. Eu vivia com muita intensidade,
fazendo coisas que a revolução pedia. Trabalhei
cortando cana, como um escravo negro africano. Fiz três
safras completas, de novembro a maio, acordando às
4 da manhã para trabalhar na lavoura. Havia universidades
em todo o país e era muito fácil entrar em uma.
Tínhamos 57 centros universitários funcionando.
Isso, num país do tamanho de Cuba, era extraordinário.
Claro que toda essa crença desmoronou nos anos 90,
com a fome, a censura e o aperto generalizado. Mas nos anos
60 eu podia escolher qualquer coisa para estudar. Até
que me dei conta de que, para ser escritor,
o que necessitava era ler muito. Mas ler o que me interessava.
E ter muitas mulheres.
PLAYBOY — Você
escreve sobre mulheres fortes, decididas, calientes. Quando
percebeu que elas teriam um papel importante em sua vida?
GUTIÉRREZ —Na
infância. Tinha uns 8 anos quando me apaixonei pela
primeira vez. Ela era uma puta. Eu morava em Matanzas, ao
lado do bairro das prostitutas. Lá havia um lugar que
se chamava Sloppy Joe’s
Bar, que tinha filiais em Havana e Key West. O [escritor
inglês Graham] Greene fala dele em Nosso Homem
em Havana. Eu me sentava todas as tardes ao lado desse
bar, vendendo meus gibis. Havia uma morena, que passava rebolando,
ali pelas 5 da tarde, com seus cabelos compridos... Ai! Não
sabia que era uma puta, eu era uma criança. Essa mulher
rodava um chaveirinho sem parar. Era tão elegante que
eu ficava fascinado. Só depois me dei conta de que
o chaveiro servia para que os outros soubessem o que ela fazia.
Como gostava daquela morena! Em Trilogia Suja há
um poema dedicado a ela. Foi a primeira paixão de minha
vida. Nunca trocamos uma só palavra.
PLAYBOY — Você
transou com muitas prostitutas?
GUTIÉRREZ —
Jamais paguei para trepar. Nunca precisei disso. Pelo contrário.
PLAYBOY — Como assim?
Te pagaram, então?
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GUTIÉRREZ
— Não, não é isso. Mas sei
o que é viver assim. Morei com uma mulatinha chamada
Luisa, que tinha de trabalhar na rua para podermos sobreviver.
Não tínhamos um centavo. Luisa saía
à tarde e voltava às 3, 4 da manhã
com dinheiro, muito calma. Nossa relação
durou uns 9 meses. Ainda nos falamos por telefone. Virou
manicure. |
PLAYBOY — Conte
melhor essa história.
GUTIÉRREZ —
Luisa trabalhava no Correio e ganhava ainda menos que eu —
o equivalente a 1 dólar e meio por mês. Era catorze
anos mais nova. Eu estava perto dos 44, ela devia ter uns
30. Muito bonita, uma boca maravilhosa. Um dia me disse: “Pedro,
vou ter que ir ao Malecón e ver se encontro um gringo”.
[Malecón é o calçadão de sete
quilômetros, à beira-mar de Havana, onde se concentra
a barra-pesada da capital — traficantes, prostitutas,
bêbados. É o coração do turismo
sexual do país] E eu disse: “Pois vá,
então”. E ela fazia isso para sobreviver.
PLAYBOY — Dava um
bom dinheiro?
GUTIÉRREZ —
Luisa não agia como uma prostituta e nem saía
todos os dias. Fazia para sobreviver, como falei. Isso em
Cuba tem outro nome: jinetera. São mulheres
comuns, geralmente formadas, trabalhadoras, que em determinado
momento são obrigadas a encarar essa saída.
Imagine uma mulher que ganha 1 dólar e meio e que não
pode deixar esse trabalho porque não há outro.
E o que ela tem? Um corpo bonito, jovem. Ela saía uma
noite e voltava com 50 dólares. Por uma noite! Além
disso, era fácil. Os europeus não trepam como
nós, cubanos. Nós, sim, trepamos muito, a noite
inteira, até a exaustão. Os gringos só
precisam de uns minutos e pronto. Às vezes, não
precisam nem meter: só de olhar já gozam. E
tudo com preservativo, claro.
PLAYBOY — Você
não ficava com ciúme?
GUTIÉRREZ —
Olha, em absoluto. Era um trabalho como outro qualquer. Quando
alguém está numa situação dessas,
sua moral e sua ética mudam. Essa é a moral
e a ética da sobrevivência. Você pode morrer
de fome ou mudar os conceitos éticos e tocar para frente.
Hoje posso dizer sem medo ou vergonha: a questão era
sobreviver, fosse como fosse. [Enfático.]
So-bre-vi-ver. O resto era resto. Há um belo romance
chamado A Pele [de Curzio Malaparte], um
clássico da literatura italiana. É ambientado
em Nápoles, no fim da 2ª Guerra Mundial, quando
a Itália estava destruída. E as italianas faziam
o mesmo que as cubanas. Quando acabou a guerra, não
havia nada: nem comida, nem roupas. E elas tinham fome. As
italianas se deitavam com negros americanos, soldados de outros
países por uma meia, uma lata de sardinha, um pedaço
de pão, uma barra de chocolate.
PLAYBOY — Você
vivia essas coisas e transformava tudo em literatura?
GUTIÉRREZ —
Os contos de Trilogia Suja foram produzidos num estado
de catarse. Às vezes, ficava sozinho de madrugada,
depois de tomar uma garrafa de rum, e começava a pensar
nas coisas que haviam se passado nos dias anteriores. Corria
e começava a escrever. Pá, pá, pá...
muito rápido. Com aquele sentimento, não podia
escrever calmamente, com filosofia, com retórica. Era
como me vinha à cabeça. Geralmente, estava transtornado.
Desse modo, no dia seguinte me dedicava a melhorar o conto,
a trabalhá-lo. Mas a primeira versão sempre
saía à mão, quando eu estava bêbado
e louco.
PLAYBOY — Antes
desse período, você era mais controlado com relação
ao sexo e à bebida?
| GUTIÉRREZ
— Na verdade, com sexo sempre foi assim, confesso.
Às vezes, tinha sete mulheres ao mesmo tempo. Eu
era um tipo moreno, bonito. Sério! Se tivesse uma
foto aqui poderia mostrar. Uma vez me envolvi com uma
diplomata polaca muito elegante, séria, um pouco
mais velha do que eu, que me chamava de “príncipe
moreno”. Isso é ruim. Ser muito bonito é
algo que esvazia moralmente. Não tinha de me esforçar
para conquistar uma mulher, eu as ganhava com um olhar.
Além disso, era jornalista, trabalhava numa rádio,
depois na TV. Tinha carro, algum dinheiro, muito tempo
livre. Às vezes, fazia duas notas para a TV em
uma hora e tinha o resto do dia para mim. As mulheres
sempre vieram com muita facilidade. Uma coisa louca. |
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PLAYBOY — Por que
elas gostavam tanto de você?
GUTIÉRREZ —
Talvez porque eu nunca tenha visto o sexo como somente sexo.
Sou um tipo muito romântico. As mulheres eram como um
vício para mim. Escrevia poemas eróticos para
uma, um soneto para outra, algumas rimas para outra... Talvez
precise de um psicanalista para descobrir por que me portava
dessa maneira, por que gastava tanta energia. Destruí
meu casamento por causa disso. Sim, porque se você está
com uma mulher linda, uma mulher boa, de quem gosta, por que
precisa de outras seis? Eu tinha sempre várias amantes.
Chegava em casa às 8 da noite, tomava banho, comia,
transava com a minha mulher e saía de novo para transar.
PLAYBOY — Ela sabia
disso?
GUTIÉRREZ —
Ela suspeitava. Até que um dia tudo desmoronou.
PLAYBOY — E era
impossível parar?
GUTIÉRREZ —
Era um vício, como falei. E quando caí nessa
situação horrorosa no começo dos anos
90, ficou pior ainda. Que podia fazer com 3 dólares?
Tinha que me dedicar a outras coisas, para me distrair um
pouco daquela situação tão brutal.
PLAYBOY — Havia
algum método de trabalho nessa loucura?
GUTIÉRREZ —
Escrevia as histórias uns três ou quatro dias
depois do que se passava comigo, com um amigo ou com um vizinho.
Meu sistema de trabalho era parecido com o preparo de uma
salada: recolhia o tomate, a alface, a cenoura e colocava
tudo bonitinho numa bandeja, para que ficasse agradável
à vista. Ou seja, pegava um pouco de mim, um pouco
do que ouvia e colocava no papel. Depois do rascunho, ia para
minha máquina de escrever fabricada em 1923 e dava
os retoques finais.
PLAYBOY — Seus amigos
sempre contaram o que se passava com eles?
GUTIÉRREZ —
Atraio gente que sente vontade de desabafar. Isso sempre acontece.
É como uma vocação. As mulheres, principalmente,
me contam tudo. O melhor método para se inteirar de
algo é fazer sexo com uma mulher.
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PLAYBOY
— Você escrevia o tempo todo num estado
alterado?
GUTIÉRREZ
— Às vezes, não. Mas tive problemas
graves com álcool. Houve tempo em que não
podia ficar sem rum. Lá pelas 6 da tarde, ficava
desesperado por um trago. E por um charuto. Charutos
muito baratos, falsificados. |
PLAYBOY — Em Trilogia
Suja, o personagem Pedro Juan mergulha em verdadeiras
epopéias sexuais, sem jamais negar fogo. Você
já broxou alguma vez?
GUTIÉRREZ —
[Ri por alguns segundos, depois faz uma cara grave, concentrada,
coçando a sobrancelha.] Vou dizer uma coisa, compadre:
nunca falhei. A única coisa que incrivelmente nunca
me aconteceu foi ficar impotente. Sabe por quê? Porque
escolho bem as mulheres. Busco as que me atraem muito. Comigo
não funciona assim: olha, agarra e vai para a cama.
Não dá, não sou um computador. Por mais
linda que seja ela, não adianta. É preciso me
excitar, me impressionar. E sou facilmente impressionável.
Acho que é por isso que nunca falhei.
PLAYBOY — Aqui no
Brasil não aconteceu nada?
GUTIÉRREZ —
Sim. Foi aqui perto do hotel, num domingo à noite.
É engraçado, porque as pessoas me dizem que
escrevo sobre Havana, mas não é verdade —
aquela é a visão de qualquer cidade grande do
mundo. Pode ser São Paulo, Rio de Janeiro, Madri ou
Nova York. Bem, eu havia chegado ao hotel e estava com fome.
Fui dar uma volta pelo bairro [de Pinheiros, na Zona Oeste
de São Paulo] e me deu vontade de tomar um gole
de cachaça. Parei num bar nas redondezas. Veio me atender
uma mocinha morena, baixinha, bonitinha. Pedi uma cachaça
e ela foi ver se tinha e quanto custava. Perguntei como a
garçonete não sabia o preço da cachaça
e ela contou que, na verdade, trabalhava na cozinha. Estava
apenas substituindo o garçom, que faltara. Comecei,
com meu português sofrível, a lhe fazer perguntas,
e como o lugar estava vazio ela se sentou comigo. Conversamos
mais de uma hora. Ela me contou toda sua vida. Era do Nordeste
do país, tinha vindo para trabalhar, criava tantos
filhos, falou dos problemas de seu pai, dos seus próprios
problemas. Foi tempo suficiente para tomar duas cachaças.
Ela era simples e doce — isso é muito importante
numa mulher. Perguntei a que horas sairia do trabalho. Convidei-a
para tomar uma cerveja, mas ela não aceitou. Me disse,
com muito jeito, que precisava cuidar dos filhos. E eu teria
dado qualquer coisa para seguir falando com ela. Talvez chegássemos
ao sexo, é quase certo. Mas não era isso o que
importava. Eu queria mesmo conversar com aquela moça.
PLAYBOY — Essa garçonete
vai se transformar num personagem?
GUTIÉRREZ —
Pode ser. Se eu vivesse aqui, certamente iria procurá-la
de novo, e depois de uns dias a convidaria para sair e provavelmente
chegaríamos ao sexo. Sem pressa. Sou assim: sexo não
é um desespero. Faria amizade com uma mulher interessante,
carinhosa, simples. Sem esperar transcendência. Não
temos que esperar encontrar sempre um par que transcenda.
É suficiente sentir-se bem com alguém. Para
que servem as prostitutas? Se um dia eu tiver que pagar para
me deitar com alguém, pode estar seguro de que estarei
impotente. Isso não entra na minha filosofia de vida.
Sou um sedutor. Se ficasse aqui um mês, pode ter certeza
de que a garçonete transaria comigo e estaria em meus
livros.
PLAYBOY — Alguns
críticos afirmam que você faz apenas pornografia.
O que acha disso?
GUTIÉRREZ —
[O dramaturgo russo Anton] Tchecov gostava de repetir
uma ótima frase. Mais ou menos o seguinte: “Um
escritor tem que ser tão objetivo quanto um químico”.
Se o químico que descobriu a penicilina tivesse asco
de tantas drogas, de tantas doenças, jamais teria feito
sua descoberta. O olhar do químico é mais profundo,
vai além da sujeira. Creio que o escritor tem de ser
assim também: objetivo e sem medo de se sujar. O que
acontece é que nós somos obcecados por certos
temas. [A escritora inglesa de policiais] Agatha
Cristie tinha fixação por crimes, por exemplo.
Matava sem pena seus personagens: envenenava-os, dava-lhes
tiros, torturava-os. Eu não posso matar um personagem.
Durante os três dias que levei para terminar O Rei
de Havana, que tem um fim trágico, chorei copiosamente.
Não queria dar aquele destino para o meu personagem.
Queria que ele descobrisse uma saída. Principalmente
porque é uma pessoa que realmente existe, assim como
vários tipos presentes no livro. Não são
meus amigos do peito, mas os conheço, nos falamos o
tempo todo.
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PLAYBOY
— Em O Rei de Havana, o protagonista
tem um pênis de 22 centímetros, com duas
pérolas enxertadas nele. Esse sujeito existe?
GUTIÉRREZ
— Sim, e mora no meu bairro. Esteve preso por
muito tempo e fez essa operação. Costumamos
nos sentar na esquina de casa para jogar cartas e beber. |
PLAYBOY — Ele e
os outros sabem que lhe servem de inspiração?
GUTIÉRREZ —
Não! Os livros não são publicados em
Cuba. Por sorte! Calculo que haja uns 400 exemplares ilegais
no país, que os estrangeiros trazem e fazem circular
de mão em mão. Outro dia apareceu um deles no
meu bairro. Um amigo o leu e veio me falar: “Homem,
aqui está o bairro inteiro!” E eu gritei: “Esconde
isso, porra! Eles me matam se vêem suas histórias
publicadas”. Claro que eu troco os nomes, mas estão
todos lá, facilmente identificáveis.
PLAYBOY — As editoras
cubanas ignoraram solenemente sua obra. Como conseguiu publicar
Trilogia Suja de Havana?
GUTIÉRREZ —
Um dia, apareceu uma amiga francesa em Havana, que era agente
na Europa. Ela queria levar alguns trabalhos de escritores
cubanos novos e carregou a Trilogia Suja completa.
Eu já havia inscrito meu trabalho no escritório
de direitos autorais, portanto estava seguro em despachar
meus originais, não haveria problemas de plágio.
Uns três meses depois me ligaram da Espanha, dizendo
que tinham adorado o livro e queriam publicá-lo. Nessa
época, estava com umas idéias e não quis
perder a oportunidade daquela viagem. Li uma frase do [escritor
americano] Henry Miller que me impressionou bastante:
“Na literatura, quando se começa com os tambores,
há que se terminar com TNT”. Rascunhei um romance
em treze dias. Assim, quando desembarquei na Espanha para
promover a Trilogia, levei O Rei de Havana
debaixo do braço. Eles compraram os dois.
PLAYBOY — Algum
personagem já fugiu ao seu controle?
GUTIÉRREZ —
Sim. O travesti Sandra, de O Rei de Havana, que deveria
aparecer em uma ou duas páginas, no máximo.
A coisa foi crescendo, crescendo e ela ficou com dois capítulos.
Tive de fazer Sandra desaparecer porque ela estava tomando
muito espaço.
PLAYBOY — Animal
Tropical, seu novo romance, ainda não lançado
no Brasil, segue esta mesma linha de realismo sujo como você
mesmo define?
GUTIÉRREZ —
É um livro mais calmo que os outros. Tive um romance
lindo com uma muchacha de Havana, de uns 32 anos. Um pouco
prostituta, um pouco jinetera. Uma mulher da rua, mas espiritualmente
uma pessoa encantadora. Foi quem inspirou a personagem principal
de Animal. Ela tem uma guia espiritual, uma entidade
cigana que a direciona, fala coisas interessantes. Ao mesmo
tempo, é muito lutadora. Era bailarina em Havana. O
Pedro Juan da Trilogia Suja está presente
em Animal Tropical, mas é um homem diferente.
Reaparece com uns 50 anos, transa com uma sueca muito fria,
branca, magrinha, dona de peitos enormes. Neurótica.
A sueca é o contrário da cubana. Ele fica dividido
entre as duas. Dá para perceber que é um tipo
um pouco insaciável — e, sim, um tanto autobiográfico.
PLAYBOY — Você
vive com o dinheiro que ganha com a literatura?
GUTIÉRREZ —
Sim. Em Havana é possível viver com muito pouco.
Às vezes, vendo um quadro ou outro e assim vou levando.
[Gutiérrez também é pintor.]
PLAYBOY — Não
está rico?
GUTIÉRREZ —
De jeito nenhum!
PLAYBOY — Por que
não vai embora de Cuba?
| GUTIÉRREZ
— Não me interessa sair de Havana. A cidade
é minha matéria-prima. Não quero
ficar como alguns escritores exilados que saíram
de Cuba há anos e continuam escrevendo sobre como
é o país, quando na verdade não sabem
mais. Descrevem uma Havana que não existe mais,
uma Havana da lembrança, da saudade. A Havana de
dez anos atrás não tem nada a ver com a
de hoje. Eu, estando lá, posso escrever sobre a
cidade porque sei o que está acontecendo. Além
do mais, minha família vive em Havana e minha mãe
está muito doente. |
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PLAYBOY — Então
você tem condições de mudar-se para, digamos,
um bairro melhor? [Gutiérrez vive numa cobertura
detonada de frente para o Malecón.]
GUTIÉRREZ —
Claro, claro. Estou pensando em me mudar para um lugar mais
calmo.
PLAYBOY — E não
terá problemas em conseguir personagens para suas histórias?
GUTIÉRREZ —
Não, tenho milhões de anotações.
Preciso de um pouco mais de tranqüilidade. A literatura
não é somente uma forma de ganhar dinheiro,
nem é a única. Posso vender uns quadros, posso
ganhar dinheiro escrevendo para revistas internacionais. Tenho
material para mais uns três livros.
PLAYBOY — Pergunta
clássica de Playboy:
como foi sua primeira vez?
GUTIÉRREZ —
Foi quando estava no exército. Tinha 16, 17 anos e
transei com algumas bezerras. Ficávamos meses no campo,
cortando cana. Íamos eu e mais uns cinco, escondidos
no meio do mato, e pegávamos uma bezerrinha. Completamente
normal para meninos daquela idade. Ela ficava assim, paradinha,
sem entender nada. Muito gostoso.
PLAYBOY — E com
gente?
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GUTIÉRREZ
— Nessa mesma época, conheci uma menina muito
bonita, magrinha, de cabelos negros e compridos, assanhadinha.
Um dia, fomos à praia. Nadamos e conversamos bastante
tempo. Eu a ensinava a nadar, tocava no corpo dela. Mas
estava junto um mariconzito, amigo dela, que não
desgrudava da gente. E eu ali, em ponto de bala, esperando
que ele fosse embora. Até que ela o despachou e
ficamos apenas os dois. Perto das 7 da noite, com um pôr-do-sol
maravilhoso, começamos a nos beijar. Os dois já
loucos de tesão, nos escondemos atrás de
umas pedras. Encaixei-a numa saliência e foi ali
mesmo, em pé. Pã, pã, pã,
pã — e pronto. Ela me disse que trabalhava
no Hospital Municipal, na parte da limpeza. Então
fui vinte ou trinta vezes ao hospital para procurar a
menina. O prédio tinha cinco andares, era enorme.
Percorri aqueles corredores umas cinqüenta vezes,
em diferentes horários. Fiquei louco! Nunca havia
trepado! Com uma vaca era outra coisa, claro. Infelizmente,
nunca mais vi a menina. A partir daí comecei uma
vida sexual normal. |
PLAYBOY — Você
acha que esse sexo desenfreado em Cuba é uma válvula
de escape?
GUTIÉRREZ —
Mais ou menos. Somos um povo mestiço e isso é
definitivo em nossa sexualidade. Olha só: já
com os africanos havia uma seleção muito rigorosa.
Eles eram selecionados antes de serem capturados, depois morriam
alguns durante o transporte. Na hora da compra, escolhiam-se
os mais altos, os mais fortes, os mais belos. As mulheres
também: as mais fortes, que podiam ter mais filhos,
eram as eleitas. Em Cuba, os negros têm uma musculatura
inacreditável, são bonitos. A cada dia nos misturamos
mais, a cada dia há mais mulatos. Faz décadas
que não há um censo, mas estou convencido de
que, nesse momento, há muito mais negros e mulatos
do que brancos em Cuba. A mestiçagem nos deixou de
herança genética uma paixão pela música,
uma paixão pelo sexo, uma paixão pela alegria
de viver. O cubano às vezes tem um dólar no
bolso e não está nem aí. Ele vai à
esquina, compra uma garrafa de rum e convida alguns amigos
para beber. Em seguida faz uns bicos e busca mais dinheiro.
Vejo o sexo como uma conseqüência dessa alegria
de viver, dessa felicidade. Acho até que a Revolução
ajudou muito na maneira de enxergar o sexo. Há mais
sinceridade nas relações. Nenhuma menina chega
virgem ao casamento. Isso já não passa mais
pela cabeça delas.
PLAYBOY — Como aborda
esse assunto com seus filhos?
GUTIÉRREZ —
Meu filho tinha 12 anos quando um dia entrou em casa, de mãos
dadas com uma menina, e trancou-se no quarto com ela. Depois,
chamei-o para uma conversa e disse-lhe que podia fazer o que
bem entendesse, desde que em casa, com uma parceira apenas
e usando camisinha. Ensinei-lhe o seguinte: é preciso
dar três orgasmos para uma garota antes que você
tenha o seu. Para isso existem a língua, os dedos,
o pinto. O homem vem por último. Por isso, talvez,
o cubano tenha fama de bom amante. O cubano nunca faz sexo
para ele, faz para a mulher. Ela é quem tem de sair
satisfeita. E o homem tem de fazer tudo, não pode ter
nojo. Essa é outra razão pela qual nós,
cubanos, não gostamos de prostitutas. Com uma puta,
temos que colocar camisinha, não se pode beijar na
boca, fazer sexo oral... É uma relação
muito cheia de escrúpulos.
PLAYBOY — Você
está casado com a segunda mulher, mas acaba de ter
uma filha com sua vizinha. Parece que vive com as duas. Você
é um legítimo bígamo caribenho?
GUTIÉRREZ —
Não acredito em bigamia. É um conceito muito
ocidental, muito católico. O ser humano é infiel
por natureza. Jesus Cristo nunca tentou fundar uma religião.
Só tentou demonstrar que se podia viver de um modo
diferente, com mais espiritualidade.
PLAYBOY — Mas você
está casado ou não?
GUTIÉRREZ —
Sim, há cinco anos, e estamos muito bem. O que acontece
é que tive um caso com uma mulher e agora nasceu minha
filha Bárbara.
PLAYBOY — E você
segue com as duas?
GUTIÉRREZ —
Sim, sigo com as duas.
PLAYBOY — E elas
sabem uma da outra?
GUTIÉRREZ —
Como poderiam não saber? São vizinhas!
PLAYBOY — E como
você resolveu essa questão?
GUTIÉRREZ —
Claro que tive problemas, mas o pior já passou. Quando
a outra apareceu grávida, minha mulher ficou furiosa.
Mas as coisas vão se ajeitando. As mulheres dos escritores
deveriam fundar uma espécie de sociedade internacional.
Há pessoas que lêem o livro e se apaixonam pelo
escritor. Ligam para minha casa, mandam-me cartas, até
aparecem na minha porta. Vêem com os pretextos mais
engraçados. Uma vinha dizendo que era jornalista. Mentira,
só queria me conhecer. Outro dia, apareceu alguém
com uma fita cassete debaixo do braço. Menciono várias
músicas em Trilogia Suja. Ela as gravou e
me trouxe de presente. Por sorte, minha mulher tem muita confiança
em mim. Além disso, sabe que cada dia concentro mais
energia na literatura.
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PLAYBOY
— Você afirmou, numa entrevista, que transou
com 200 mulheres. Isso é uma daquelas bravatas
de amante latino? Você realmente fez as contas?
GUTIÉRREZ — Quando tinha
uns 34 anos, comecei a elaborar uma lista das mulheres
com quem havia me deitado. De algumas não me
lembrava o nome, então descrevia a situação.
Comecei: 25, 78, 110, 120... E comecei a me assustar.
Parei em 135. Isso foi antes da crise. Por isso calculo
que já fui para a cama com mais de 200 mulheres. |
PLAYBOY — E qual
foi a melhor?
GUTIÉRREZ —
É difícil escolher, porque gostei de quase todas.
Mas posso dizer qual é o sexo mais chato: o do casamento.
Isso posso afirmar categoricamente. A coisa se transforma
em uma rotina insuportável: você faz amor de
vez em quando, de madrugada, dorme um pouco, faz um pouco
de carinho, e terminou. A grande loucura em sexo acontece
sempre nas primeiras vezes. Ou quando você tem uma amante,
que é proibida, e os encontros não são
freqüentes.
PLAYBOY — Tem medo
de que algo ruim possa acontecer a você em Cuba?
GUTIÉRREZ —
Não. O governo até me convidou, no ano passado,
para promover A Melancolia dos Leões. Cuba
não é uma ditadura policial, onde vão
te dar um tiro se você criticar o governo. Mas podem
tornar as coisas difíceis para você. Eu, por
exemplo, fui banido da profissão de jornalista.
PLAYBOY — O que
significa essa tatuagem? [No alto do braço direito
há uma espada com uma serpente enrodilhada.]
| GUTIÉRREZ
— Essa é a espada de Santa Bárbara,
mas a serpente eu não digo o que significa. Fiz
a tatuagem em 2 de dezembro de 1998. Foi o dia em que
ganhei meu primeiro dinheiro como escritor, por Trilogia
Suja, em Madri. Aterrissei na Espanha sem um centavo,
estava promovendo o livro. No dia em que me pagaram
— e fechei com eles a publicação
de O Rei de Havana também — foi
uma festa. Fazia mais de 12 anos que eu queria uma tatuagem,
mas era muito caro. Custava mais de 100 dólares
para fazê-la num lugar seguro, com material descartável
e tudo. Então, naquele 2 de dezembro, um pouco
em homenagem ao Rei de Havana, gravei esta
espada. É a única que tenho no corpo.
Também não tenho pérolas em lugar
nenhum. [Risos.] |
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PLAYBOY — Dá
para fazer planos para o futuro?
GUTIÉRREZ —
Agora preciso de descanso. Por sorte, eu pinto. A pintura
me relaxa e a literatura me cansa. Sou como um alemão,
preciso de muita disciplina para escrever. Eu me entrego muito,
do ponto de vista emocional. Não consigo escrever sobre
o que não conheço. Não posso publicar
um romance que se passa em Ouro Preto [Minas Gerais],
porque só estive lá por dois dias. É
falso. Tenho que sentir. [O escritor americano Ernest]
Hemingway dizia que um escritor precisa manter o detector
de merda funcionando. O meu está ok. Não é
como no jornalismo, em que muitas vezes você é
obrigado a escrever sobre coisas de que não gosta.
A literatura para mim é sagrada.
PLAYBOY — Seus personagens
estão sempre fazendo oferendas para santos ou visitando
terreiros. Em cima da sua mesa estão abertos livros
sobre yoga e budismo. Você virou um sujeito místico?
GUTIÉRREZ —
Minha família não me criou com uma educação
religiosa. Apesar disso, minha mãe acreditava nos seus
santos e tal. Quando eu tinha uns 13 anos, caí numa
crise religiosa muito forte, porque havia coisas que nunca
consegui aceitar. Essa história de Santíssima
Trindade, por exemplo. Aos 16 anos, eu tinha aulas de filosofia
marxista, de dialética. Fui professor de marxismo de
uma turma. Afastei-me cada vez mais da vida espiritual. Até
que, lá por volta de 1992, quando estava muito mal,
uma amiga me convidou a conhecer um terreiro. Disse que sabia
de uma mãe-de-santo muito boa. Fui atraído pelo
aspecto folclórico. Além disso, queria coletar
material para meus livros. Bem, aquela mulher me disse tantas,
mas tantas coisas... E ela não me conhecia, não
sabia quem eu era. Falou de meus filhos, da minha ex-mulher.
Sussurrou: “Neste momento você tem relacionamentos
com sete mulheres”. E era verdade. “Você
é protegido de Xangô e de Ogum. Ogum é
o deus da guerra. Xangô é muito mulherengo.”
Verdade. Ela me mandou fazer alguns trabalhos. Obedeci e pouco
a pouco comecei a me sentir melhor. Eu e meu espírito.
PLAYBOY — Isso não
pode ser prejudicial à sua literatura? Quer dizer,
ficar tranqüilo demais...
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GUTIÉRREZ
— Espero que não. Chegou um momento em que
me abri para a religião e aos poucos incorporei
outras coisas. Hoje em dia faço um pouco de yoga,
um pouco de meditação. Gosto muito da filosofia
budista. Cada dia aprendo mais sobre o budismo e fico
mais fascinado, porque me traz calma. Ajuda-me a entender
muita coisa. Hoje acho que, sem esse lado espiritual,
não conseguiria viver. Estou saindo de um ciclo
de vida muito pesado, forte, violento. Houve vários
momentos em que pensei que não suportaria. |
PLAYBOY — O que
é menos complicada: a vida ou a literatura?
GUTIÉRREZ —
Trato de reduzir um pouco a realidade, de transformá-la
em algo mais leve, para fazê-la possível de se
acreditar. Isso acontece em meus livros: tenho que traduzir
os fatos para que as pessoas acreditem neles. Esse é
o principal problema da literatura: ela precisa ser crível.
A vida é outra coisa. A vida é a vida, e nela
pode acontecer qualquer coisa, acredite ou não. Na
literatura é necessário organizar os elementos,
senão fica falso. Daí existirem tantos livros
ruins por aí: os autores não conhecem o ofício
de fazer as pessoas acreditarem em suas histórias.
Demorei muitos anos até aprender isso.
PLAYBOY — Você
é feliz?
GUTIÉRREZ
—A felicidade é um caminho sem chegada. Mas pelo
menos posso aspirar à serenidade. Tendo um pouco disso,
um pouco de paz interior, para mim está bom —
desde que eu possa transmitir um pouco dessa paz às
pessoas que estão ao meu redor.
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