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  El insaciable hombre araña (fragmentos)  
 
Leer O insaciável homem-aranha (Trechos do Livro)
Pedro Juan Gutiérrez


“TENTO esquecer que tem sempre alguém me controlando, opinando e decidindo nossas vidas. Não é bom lembrar disso porque o tigre que eu tenho dentro de mim fica furioso. E isso é terrível. Posso ficar vingativo e selvagem. Posso perder o controle. E na selva quem perde o controle perece. Nada de perder o controle. Tem que ser astuto.”

   (In: O Tesouro da República)

“- Você é cínico.

  - O suficiente para resistir”

(...)

   “Vou embora. Muito obrigada. Desculpe incomodar você. É que... acho que você e eu somos parecidos.

   - Todos somos parecidos.

   - Todos quem?

   - Todos.”

   ( In: No minuto exato)

“Ás vezes penso: “ É você que está mal da cabeça. Você o pirado e o pessimista de merda. Você é um imbecil e está ficando velho, amargo e com arteriosclerose”. Mas quando saio para a rua escuto as pessoas maltratadas, irritáveis, se queixando de tudo, injetando ódio e rancor nas outras. O que é isso? O aquecimento global? O apocalipse por que tanta amargura e frustração?

   ( In: O insaciável homem-aranha)

“Acaba de se divorciar: “ Aqui a vida corre como se fosse um corredor. Pouca coisa de interesse de um lado e de outro, pelo menos de interesse para mim, que vou perdendo o interesse a medida que os anos passam. Não sei se estou muito puto com o exterior ou se simplesmente não me importa mais. Não escrevo e não sei o que vai ser da minha vida nos próximos ...” Ah, caralho.”

   ( In: O insaciável homem-aranha)

“Me pergunto se todas as vidas são vertiginosas e caóticas como a minha. Será que todos vivem tão desesperadamente? É insuportável. Ás vezes, penso que preciso me refrear um pouco. Outras vezes, penso que já está tudo feito. E não tem volta. Quando a gente escreve até transformar a escrita em vício, a única coisa que se faz é explorar. E para encontrar alguma coisa é preciso ir até o fundo, é impossível regressar até a superfície. Não pode sair jamais.”

   (...)

   “ ... Por volta das cinco dirigi-me calmamente à igreja.  O calor e a humidade ainda eram sufocantes.  A entrada para as reuniões dos Alcoólicos Anónimos é por trás.  Era cedo e ainda estava fechado.  Caminhei um pouco mais.  Parei numa esquina para fazer tempo.  E ali estavam as tentações todas à minha frente:  o bar Casa Grande, velhíssimo, desmazelado até à imundície, e sem nada nas prateleiras, mas num canto do balcão havia um empregado a vender rum barato, cigarros e charutos.  Isso nunca faltava.  E as mulatas e as negras - as brancas aborrecem-me, definitivamente - a passar pelo passeio com os seus formosos corpos e desplante fresco e provocador.  Entrei no Casa Grande.  Sentei-me num banco e pedi um duplo.  Fica na esquina de Águila e San José, quer dizer, rodeado de fogo ao rubro.  Gosto deste bairro, atrás do Capitólio.  É uma caldeira infernal de azeite a ferver.  Mas não queria envolver-me.  Limitei-me a beber e a olhar para as mulheres que passavam pelo passeio.  Às sete menos cinco, levantei-me e fui à minha primeira reunião dos A.A.  Ia esperançado.  E curioso.  Não fazia a menor ideia de como seria.  Detive-me a uns metros da porta.  Olhei lá para dentro.  Desde a rua.  E não pensei.  Simplesmente não pensei.

   Voltei ao Casa Grande.  Pedi um duplo e um tabaco.  O terrível é a incerteza.  É tão mortífera como um balázio nas têmporas."

   (In: Zona diabólica)

“Eu olhava as mulheres e pensava que não existe a mulher ideal. Não existe nada ideal. Tudo o que um dia aspirou a ser ideal foi esmagado pelo espírito da época: vertigem, caos, dinheiro, e confusão. Merda, porra!”

   (In: Nada Heróico)

“Passaram-se vinte anos. Daqui olho aquela etapa da minha vida e me assombro de ver como é fácil alcançar e manter um altíssimo nível de estupidez. Não tenho mais remédio: agora sou um punhado de dúvidas e incertezas de todo o tipo. Ás vezes, acumulam-se tantas que chego á perplexidade absoluta.”

   (In: Um bom time)

“Minha mãe dormia no sofá da sala (...) Toma comprimidos três vezes por dia: quando acorda, ao meio-dia e antes de deitar. Toma uma grande quantidade de estimulantes, tranqüilizantes e equilibrantes. Tem uma gaveta com todos os comprimidos bem classificados e arrumados, como se fossem uma coleção de selos e correio.”

   (In: Alguma coisa que me faça pular)

“Eu seria capaz de transformá-la em uma pecadora brilhante. Acho que não tinha espírito aventureiro e preferiu voltar para o curral de suas filhas, seu marido chato, suas aulas na universidade, suas missas aos domingos de manhã, sua casa luxuosa e o resto de suas propriedades. Agora penso que ela fez bem. São uns poucos eleitos conseguem viver fora do curral. E é muito difícil encontra-los.”

   (In: Uns poucos eleitos)

©Pedro Juan Gutiérrez

 

Trechos do livro O insaciável homem-aranha

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