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“TENTO esquecer que tem sempre alguém me controlando, opinando e decidindo nossas vidas. Não é bom lembrar disso porque o tigre que eu tenho dentro de mim fica furioso. E isso é terrível. Posso ficar vingativo e selvagem. Posso perder o controle. E na selva quem perde o controle perece. Nada de perder o controle. Tem que ser astuto.”
(In: O Tesouro da República)
“- Você é cínico.
- O suficiente para resistir”
(...)
“Vou embora. Muito obrigada. Desculpe incomodar você. É que... acho que você e eu somos parecidos.
- Todos somos parecidos.
- Todos quem?
- Todos.”
( In: No minuto exato)
“Ás vezes penso: “ É você que está mal da cabeça. Você o pirado e o pessimista de merda. Você é um imbecil e está ficando velho, amargo e com arteriosclerose”. Mas quando saio para a rua escuto as pessoas maltratadas, irritáveis, se queixando de tudo, injetando ódio e rancor nas outras. O que é isso? O aquecimento global? O apocalipse por que tanta amargura e frustração?
( In: O insaciável homem-aranha)
“Acaba de se divorciar: “ Aqui a vida corre como se fosse um corredor. Pouca coisa de interesse de um lado e de outro, pelo menos de interesse para mim, que vou perdendo o interesse a medida que os anos passam. Não sei se estou muito puto com o exterior ou se simplesmente não me importa mais. Não escrevo e não sei o que vai ser da minha vida nos próximos ...” Ah, caralho.”
( In: O insaciável homem-aranha)
“Me pergunto se todas as vidas são vertiginosas e caóticas como a minha. Será que todos vivem tão desesperadamente? É insuportável. Ás vezes, penso que preciso me refrear um pouco. Outras vezes, penso que já está tudo feito. E não tem volta. Quando a gente escreve até transformar a escrita em vício, a única coisa que se faz é explorar. E para encontrar alguma coisa é preciso ir até o fundo, é impossível regressar até a superfície. Não pode sair jamais.”
(...)
“
... Por volta das cinco dirigi-me calmamente à igreja. O calor e a humidade ainda eram sufocantes. A entrada para as reuniões dos Alcoólicos Anónimos é por trás. Era cedo e ainda estava fechado. Caminhei um pouco mais. Parei numa esquina para fazer tempo. E ali estavam as tentações todas à minha frente: o bar Casa Grande, velhíssimo, desmazelado até à imundície, e sem nada nas prateleiras, mas num canto do balcão havia um empregado a vender rum barato, cigarros e charutos. Isso nunca faltava. E as mulatas e as negras - as brancas aborrecem-me, definitivamente - a passar pelo passeio com os seus formosos corpos e desplante fresco e provocador. Entrei no Casa Grande. Sentei-me num banco e pedi um duplo. Fica na esquina de Águila e San José, quer dizer, rodeado de fogo ao rubro. Gosto deste bairro, atrás do Capitólio. É uma caldeira infernal de azeite a ferver. Mas não queria envolver-me. Limitei-me a beber e a olhar para as mulheres que passavam pelo passeio. Às sete menos cinco, levantei-me e fui à minha primeira reunião dos A.A. Ia esperançado. E curioso. Não fazia a menor ideia de como seria. Detive-me a uns metros da porta. Olhei lá para dentro. Desde a rua. E não pensei. Simplesmente não pensei.
Voltei ao Casa Grande. Pedi um duplo e um tabaco. O terrível é a incerteza. É tão mortífera como um balázio nas têmporas."
(In: Zona diabólica)
“Eu olhava as mulheres e pensava que não existe a mulher ideal. Não existe nada ideal. Tudo o que um dia aspirou a ser ideal foi esmagado pelo espírito da época: vertigem, caos, dinheiro, e confusão. Merda, porra!”
(In: Nada Heróico)
“Passaram-se vinte anos. Daqui olho aquela etapa da minha vida e me assombro de ver como é fácil alcançar e manter um altíssimo nível de estupidez. Não tenho mais remédio: agora sou um punhado de dúvidas e incertezas de todo o tipo. Ás vezes, acumulam-se tantas que chego á perplexidade absoluta.”
(In: Um bom time)
“Minha mãe dormia no sofá da sala (...) Toma comprimidos três vezes por dia: quando acorda, ao meio-dia e antes de deitar. Toma uma grande quantidade de estimulantes, tranqüilizantes e equilibrantes. Tem uma gaveta com todos os comprimidos bem classificados e arrumados, como se fossem uma coleção de selos e correio.”
(In: Alguma coisa que me faça pular)
“Eu seria capaz de transformá-la em uma pecadora brilhante. Acho que não tinha espírito
aventureiro e preferiu voltar para o curral de suas filhas, seu marido chato, suas aulas na universidade, suas missas aos domingos de manhã, sua casa luxuosa e o resto de suas propriedades. Agora penso que ela fez bem. São uns poucos eleitos conseguem viver fora do curral. E é muito difícil encontra-los.”
(In: Uns poucos eleitos)
©Pedro Juan Gutiérrez
Trechos do livro O
insaciável homem-aranha
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