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Chegamos cedo à
praia. Eram nove e meia, mas à sombra de cada coqueiro
havia grupos de pessoas. Só três famílias
tinham guarda-sóis. Estendemos umas toalhas debaixo
de um coqueiro despenteado, seco e doentio. Dava uma sombra
mínima. Não havia outro livre. Minha mulher
se queixou:
-É o mesmo que nada. Melhor sentar
no sol e torrar.
-É mais que nada.
-Ai! Vou ficar preta.
-Pensamento positivo, Julia, pensamento
positivo.
-Viemos cedo porque quisemos.
-Olhe que beleza está a água.
Azulzinha e verde. Vamos.
-Não.
Ela não sabe nadar. Vem para a praia
com um livro e meio litro de rum. Eu adoro a água.
Gosto de me afastar da praia, nadar uma hora, me tonificar,
limpar as toxinas.
Fiz isso, me afastei um quilômetro
da praia e fiquei sozinho. Sem barulhos e sem nada. Boiando
de barriga para cima. A água salgada e transparente,
o céu azul, o sol, uma leve brisa que apenas roça
a superfície. Fiquei assim muito tempo. É uma
sensação perfeita. De equilíbrio talvez.
Interior e exterior. Talvez seja o que os peixes sentem. Não
há sentimentos. Não há interrupção.
Não há tempo. Não há princípio
nem fim. Nada. Deixa-se de existir. Quisera ficar assim eternamente.
Por fim consigo me controlar e volto para a praia. Sem pressa,
nadando suavemente. Quisera não chegar nunca.
Vou até o coqueiro. Certo. A sombra
é escassa demais. Estamos em maio, mas o sol queima
como se fosse agosto. Sento-me na areia. Julia está
lendo um livro muito grosso sobre o tráfico de escravos.
Olho para ela sorrindo:
-Por pouco você não traz a
Enciclopédia Britânica.
-Por quê?
-Esse livro tem novecentas páginas.
Não tinha nada mais simples?
-Estou lendo isto faz dias.
-Às vezes você é muito
prática, mas outras vezes você é... ahhh...
Me controlo. Não vou arrumar um drama,
mas sou eu que carrego a mochila, e esse livro pesa quase
dois quilos. Acho que ela faz de propósito. Tomo um
gole grande de rum.
© Pedro Juan Gutiérrez
O boxeador
é uma história que é incluída
no livro O
insaciável homem-aranha
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