| |
Estava escutando o Messias
de Haendel. Eram seis da tarde e precisava sossegar um pouco
meu espírito. Na noite anterior havia tido uma grande
briga com minha mulher. Uns amigos nos convidaram para jantar.
Chegamos, bebemos, conversamos. O de sempre. Éramos
umas dez pessoas. Bebemos bastante. Por fim, puseram a comida
na mesa. E eu, muito gentil, servi um prato para Julia. Levei
para ela e fui para a cozinha para continuar bebendo e conversando.
Um mulato com uma cara muito estranha - parecia um tubarão
sorridente - ajudava a servir. Lavava pratos e copos, preparava
os drinques. Não saía da cozinha, mas era muito
eficiente. Não bebia. Só trabalhava. A dona
da casa, em seus anos de juventude, foi uma vedete famosa.
Acho que não se usa mais essa palavra. Ou o conceito
está fora de moda. Não sei. Foi vedete. Essas
mulheres tão sedutoras e brilhantes sempre têm
à sua volta uma corte de veadinhos encantadores que
as admiram-respeitam-invejam-adoram. E além disso alimentam
os eflúvios hipnotizadores da diva. O mulato era um
desses veadinhos. Ajudava-a com amor e devoção.
Assim impedia que ela sujasse as mãos. Falando com
o sujeito descubro que somos vizinhos. Moramos a duas quadras,
em Centro Havana. E não sei como começamos a
falar de santería. "Você é filho
de Xangô, mas sua mãe é Oxum", me
disse. E por aí fomos conversando. Tínhamos
coisas em comum. Havia uma boa química entre o tubarão
gay e eu. Ele lavava pratos e eu bebia rum. Então me
disse que trabalhava em um hospital.
© Pedro Juan Gutiérrez
Sossego, paz, serenidade
é uma história que é incluída
no livro O
insaciável homem-aranha
|