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Eu queria ser alguém e não
passar a vida vendendo sorvete. Achei que a solução
seria aprender algum ofício. Alguma coisa que servisse
para fascinar as pessoas. E lia Como falar bem em público
e conquistar amigos, de Dale Carnegie. É preciso fascinar.
Seduzir. Quem sabe falar sempre puxa a sardinha para a sua
brasa. Por isso os abrutalhados morrem dando duro e não
vão além disso. E os muito falantes se metem
em política e chegam a presidentes.
Quem
me deu o livro foi um tio que partiu para Miami. Uma caixa
cheia de livros velhos: O poder da vontade, Hipnotismo para
a vida cotidiana, Hinos e salmos da Igreja Científica
do Senhor, História da Real Polícia Montada
do Canadá, Como fazer boas fotos de família,
Biblioteca condensada do Reader’s Digest.
Eu
gostava muito do tal livro sobre hipnotismo. Dizia que é
possível hipnotizar todo mundo e viver como um rei,
de papo pro ar. Era perfeito. Seduzir com lábia e hipnotizar
com a mente. O carrinho de sorvetes era muito pesado, o sol,
o suor. Eu tinha quinze anos, mas era grande e forte. Aparentava
vinte e dizia sempre “tenho vinte anos.” Ficava
mais fácil.
Na
época meus amigos me chamavam de Chupavelha, Carniceiro
e Tinhosa. Culpa minha mesmo, porque eu me exibia. “Da
próxima vez tenho de ser mais esperto. Nada de me exibir
com putas velhas”, pensava. Depois, aprendi a ser mais
discreto. A viver sozinho sem que ninguém conhecesse
os meus segredos.
Eu
morava na rua Magdalena, a uma quadra de La Marina, no bairro
das putas, em Matanzas. Tinham fechado aquilo tudo uns dois
ou três anos antes. Tudo fechado: bares, bordéis,
bilhares, cassinos, clubes. Tudo. Quase não havia marinheiros
por ali. O porto logo ficou semiparalisado e o ambiente começava
a ficar insípido e confuso. Era o ano de 1965. Ninguém
entendia muito bem que porra estava acontecendo, nem para
onde as coisas estavam indo. Era como um barco à deriva,
sacudindo em meio à tormenta.
Sempre
gostei do bairro das putas. Bem barulhento. Corria dinheiro.
Agora menos, com poucas putas que permaneciam no ofício,
tomando cuidado com a polícia. Perto do rio havia um
pequeno zoológico. O parque Watkin. Eu tinha pouco
o que fazer. Às vezes atravessava o bairro das putas,
chegava ao parque e me sentava debaixo das árvores
lendo meu livrinho. Tinha exercícios de vocalização,
dicção, improvisação e memória.
Era um bom lugar para praticar.
Naquela
manhã eu estava distraído, lendo. De repente,
passou a meu lado um macaquinho pequeno e com rabo muito comprido.
Guinchava e corria feito um desesperado. Atrás, vinham
dois funcionários com uma rede. Tinha escapado deles.
O macaco não sabia o que fazer e se enfiou dentro da
jaula dos leões. Os caras estavam com fome. Rugiram
e deram patadas. O macaco fugiu a tempo. Trepou pelas barras
e subiu para o teto. Lá estavam os vigilantes esperando
com a rede. Não pegaram ele por pouco. O macaquinho
escapou de novo para baixo. Um dos leões deu um salto
e quase o mordeu. O macaquinho guinchou aterrorizado e subiu
de novo para a rede. E novo conseguiu escapar e se enfiar
dentro da jaula. Eu gostava muito do que os leões faziam:
ficavam deitados, em aparente relax, com a cabeça levantada,
mas tranqüilos, sem mexer nem um olho. Quando o macaco
descia, um dos leões, o mais próximo, dava um
salto incrível, de quase dois metros, e ao mesmo tempo
estendia a pata num golpe mortal. O macaquinho fugia aterrorizado
e os leões esperavam tranqüilamente. Me lembro
sempre dessa cena. Nunca se deve fugir aterrorizado. É
preciso ter a serenidade alerta, a paciência astuta
dos leões. Quem foge aterrorizado vai direto para a
morte.
O
macaco repetiu o trajeto louco três ou quatro vezes.
Não lhe ocorria fugir para outro lugar. Só subia
e descia pelas barras de ferro. Numa dessas, um dos leões
calculou bem e lhe acertou uma patada brutal. O macaco nem
chiou. Direto para a boca. Todos os ossos crepitaram selvagemente.
O leão engoliu o macaco em dois segundos. E se deitou
de novo, muito digno, tranqüilo, digerindo o lanche.
Aqui não aconteceu nada.
Da
outra jaula, ali ao lado, a macaquinha esposa do dissidente
guinchava como se estivessem tirando o couro dela. Dava saltos
e se jogava contra a grade. Quando viu que o leão tinha
engolido o marido, começou a chorar. Encostou-se nas
grades da jaula soluçando desconsoladamente, como uma
pessoa. Escalou a grade até o alto. Pendurou-se pelo
dedo indicador da mão esquerda e soltou todo o corpo.
Depressão total. Queria morrer e se pendurou para esperar
a morte.
Eu
tinha assistido àquilo tudo dando risada. Era muito
divertido. Não entendia nada de amor, nem de boleros,
nem de morte e sensações de perda. Nada de nada.
E portanto era cruel, impiedoso, ignorante e feliz. O homem
típico. Quer dizer, um imbecil perfeito.
Num
banco na frente do meu havia se sentado uma mulher. Uma velha.
Devia ter quarenta e poucos anos, mas aparentava sessenta.
Chorava feito uma madalena. Estava de vestido sem alças,
com os ombros descobertos, o uniforme das putas. Era boa,
mas muito ferrada. Machucada pela vida. Não tinha mais
ninguém por ali. Só nós dois. Eu era
punheteiro. Batia quatro, cinco punhetas por dia, olhando
umas fotos da Brigitte Bardot. Os punheteiros quase sempre
são tímidos. Eu era muito tímido. Tímido
demais. Mas o livro dizia que os tímidos são
perdedores em potencial. É preciso arriscar. E me atirei.
Com o coração batendo muito rápido, quase
me saindo pela boca, respirei fundo e disse:
—
Por que você está chorando? Por causa do macaquinho?
—
É. E por causa da macaquinha. Coitadinha.
O
nariz dela escorria. Eu não tinha lenço. Ela
também não. Apertou com um dedo a fossa nasal
esquerda, soprou forte e uma ostra amarela de muco denso disparou
para o chão. Fez a mesma coisa com a direita. Era uma
porca. Se percebia a um quilômetro de distância.
Limpou-se com as costas da mão e me disse:
—
Ficou sozinha.
E
começou a chorar de novo. Resolvi falar com intimidade.
Ela não merecia outra coisa.
—
Não chore. São animais, não sofrem.
—
Sofrem, sim. São filhos de Deus. Não está
vendo a macaquinha, como chora? E olhe o filho-da-puta do
leão como está sossegado, de barriga cheia.
—
O macaco foi muito burro e não conseguiu fugir. É
a lei da natureza. Este mundo não é para gente
tonta e analfabeta.
—
Ai, como você fala bonito. Que inteligente!
Enxugou
as lágrimas. Chupou o ranho e me deu um sorriso. Especial.
Eu não soube o que dizer. As instruções
de Dale Carnegie já estavam dando resultado, mas eu
não sabia como continuar.
—
Está estudando?
—
Ééé... estou. Não. Não
tenho nada para fazer. Vendo sorvete, mas agora a fábrica
fechou e... estou lendo um pouquinho.
—
Ahhh...
Ficou
olhando para mim como se eu fosse o Marlon Brando e ela a
Marilyn Monroe. Fiquei vermelho e baixei os olhos.
—
Quantos anos você tem?
—
Vinte.
—
Não minta. Seu nariz vai crescer.
Ela
estava ficando provocante. Olhei melhor. Tinha boa bunda,
bons peitos, boas pernas. Mas tudo machucado, sujo e meio
mole. O rosto enrugado pela bebida.
—
É verdade! Tenho vinte!
—
Deve ter dezoito, no máximo... Acontece que você
é grandão, um monte de músculos. E muito
sério. Por que você é tão sério?
Fiquei
vermelho de novo. Senti o rosto arder. Nunca tinha me acontecido
uma coisa daquelas.
—
Como é o seu nome?
—
Pedro Juan.
—
Muito comprido. Posso chamar você de Pedro?
—
Pode.
—
Pedrito?
—
Pode.
—
Eu me chamo Dinorah.
—
E o que que você faz, Dinorah?
—
Nada.
—
Qual é a sua ocupação?
—
Nenhuma. Por que você é tão perguntador?
Falou
isso sorrindo. Sorri também. Não tinha nada
para dizer e estava começando a ter uma ereção.
Era assim o tempo todo. Eu vivia de ereção em
ereção. Talvez fosse muito imaginativo. Como
uma doença incontrolável. Olhando bem, gostava
da velhusca. Os olhos dela eram expressivos. Ria com o olhar.
—
Chegue mais perto, menino. Eu não mordo.
Sentei-me
ao lado dela e pus o livro em cima da braguilha. Me incomodava
que ela visse aquele volume espetado para cima feito uma flecha.
Mas ela me atacou com um direto no queixo:
—
Logo se vê que você está com um tremendo
atraso, papi.
Olhou
em volta. Não havia ninguém. Estendeu a mão,
agarrou meu pau e apertou. Meu pau ficou ainda mais duro e
meu coração disparou. Tinha mãos hábeis.
Dobrei a perna direita. Ela estava à minha esquerda.
Desceu o zíper da calça. Tirou o pau para fora.
Olhou e me disse:
—
Ai, menino, que pau mais lindo. Não é todo dia
que se vê um assim.
Bateu-me
uma punheta de cabeça e num minuto soltei um jorro
a dois metros de distância. A piroca continuava dura.
Não cedeu nem um milímetro. Ela me olhou nos
olhos e disse:
—
Logo se vê que você está bem alimentado.
O que que você come? Carne de cavalo?
Olhei
para ela. Estávamos os dois de olhos apertados.
—
O que vai fazer agora, papi?
—
Nada.
—
Guarde isso e vamos pra minha casa que eu vou te ensinar uma
coisinha.
—
O quê?
—
É uma surpresinha.
Prendi
o pau entre as coxas para ver se baixava. Mas ele ficou mais
duro. Cada vez mais. Estava doendo. Fui andando ao lado de
Dinorah me cobrindo com o livro. Ela morava muito perto. Tinha
um quarto num cortiço da rua Velarde. Entramos. Ela
fechou a porta com dois ferrolhos. Acendeu uma lâmpada
pendurada no teto. Sentou-se na cama e me disse:
—
Tira a roupa, titi. Quero ver você inteirinho pra te
dar a mamadeira.
Engoli
em seco. Continuava com o coração disparado.
Tirei a roupa e fiquei no meio do quarto. Era uma sensação
estranha e ambígua: nervoso, tímido e medroso,
mas ao mesmo tempo eu era o Super-Homem misturado com o Tarzã.
Ela me examinou atentamente de cima abaixo. Se ajoelhou e
me chupou o pau olhando para um espelho grande que havia na
parede. Minha cabeça estava em branco. Aí ela
apagou a luz e ficou tudo escuro. O quarto não tinha
janelas. Tateando, ela me levou para a cama. Ficou por cima
de mim e pouco a pouco foi enfiando minha piroca para dentro
até engolir tudo. Não sei em que momento ela
havia tirado a roupa.
Eu
me sentia nas nuvens. Era a primeira vez que trepava. Meu
pai sempre me dizia:
—
Não sei até quando você vai continuar
virgem. Você não gosta de mulher? Com tanta puta
que tem neste bairro... Você vai se matar de tanta punheta.
Punheteiro depois não fica de pau duro com as mulheres.
Dinorah
tinha um controle muscular fabuloso na vagina. Parecia uma
mão. Uma tenaz. Me apertava o pau, massageava, esticava.
Tinha um creme natural, uma lubrificação excessiva,
e sugava. Era como uma mão, um alicate e uma boca.
Três em uma. Incrível aparelhinho! Ela devia
patentear aquilo. Raríssimas mulheres conseguem fazer
aquilo. Uma bomba de sucção.
Passamos
horas ali. Eu ejaculava e seguia em frente. Tinha ejaculado
três vezes, já. O pau duro. Uma vez ordenhado
era só músculo. Ela estava desmaiando de tanto
orgasmo, mas continuava. Muito gulosa. Pedia mais. Debaixo
da cama havia uma garrafa de aguardente. Ela me passava os
goles direto da sua boca. Um pouco fedida, mas o álcool
neutralizava as emanações de fígado apodrecido.
Não
sei quantas horas depois resolveu parar. Levantou da cama
e acendeu a luz. Antes não tivesse acendido.
—
Ai, menino, você me ralou a boceta. Gosta tanto assim?
—
Gosto.
Por fim a vi nua. A barriga flácida, as pernas e as
coxas cobertas de varizes, os peitos grandes e caídos,
a pele suja e encardida, os dentes amarelos e podres. Olhou
para mim com as mãos na cintura e riu, descarada:
—
Gosta mesmo de mim? Olhe bem.
E
deu um giro, alegre, como uma modelo, como uma ninfa púbere
com todas as medidas do cânone grego. Olhei bem para
ela e me deu raiva de mim mesmo. Ou asco. Não sei.
—
Uma puta velha, é o que você é!
—
Ah, ficou enjoado depois de comer o doce-de-coco, é?
Hahahá. Continue comendo que é grátis,
hahahá.
Levantei
da cama e comecei a me vestir. De repente, estava furioso.
Ela havia me enganado. Por isso a luz apagada. Para eu não
ver como ela era. Ela sabia que era um trapo sujo de merda
seca. Se aproximou de mim muito melosa, mas eu estava com
nojo. De mim mesmo, acho. A primeira vez que trepava e tinha
de ser com aquele vômito de cachorro. “Você
é um cretino, Pedrito, um cretino, e essa puta aí
te enganou”, eu dizia para mim mesmo.
—
Mas o que aconteceu, papi, por que você vai embora tão
depressa?
—
Me deixe em paz.
—
Não gosta de mim?
Aproximou-se para me acariciar as costas. Me virei. Com a
mão esquerda agarrei-a pela nuca e com a direita meti-lhe
umas quantas bolachas na cara. Duras. Bati com vontade.
—
Descarada, suja, porca, puta, desgraçada!
—
Ai, chulito mío, não me faça isso que
eu gozo. Ai, você vai me matar! Olhe, como me escorre
pelas pernas. Olhe, chulito, como você sabe, filho-da-mãe!
Quem te ensinou tudo isso?
Abriu
as pernas e separou os lábios para me mostrar como
lhe escorria líquido pela coxas abaixo. Fiquei ainda
mais furioso porque a ereção estava voltando.
—
Olhe como está ficando a sua estaca, papi. Olhe só
isso. Pica de Ouro! Que pica mais linda, meu Deus!
Apliquei-lhe
vários pescoções. Mas, quanto mais eu
batia, mais frenética ela ficava. E mais duro ficava
meu pau. Ela gemia e se enroscava, fora do mundo. Tirei o
cinto. Aos empurrões, pus ela de bruços e dei-lhe
um monte de cintadas. Ela gritava feito uma cadela e me pedia:
—
Mete no meu cu. Ai, pare de me bater, seu atrevido! Menino
malvado! Filho-da-puta. Mete no meu cu. Você é
um louco. Pica de Ouro! Eu sou filha dos maus-tratos. Me bate
mais com o cinto. Bate pra doer.
Meti
no cu dela, na frente e na boca. Gostava daquela porca. Gostava
e sentia nojo. Me sentia bem e mal com ela. Queria beijar
até os pés dela e me excitava até com
aquele hálito asqueroso de tabaco, de rum, de cebola
e alho, de dente podre. Queria tirar sangue dela. Gostava
do cheiro de umidade, de mofo, de merda e vômito do
quarto dela, mas ao mesmo tempo queria dar as costas para
aquela coisa asquerosa e não voltar nunca mais. A luxúria
e o desespero.
Continuamos
tomando aguardente e metendo. Horas e horas. Suando, alucinados,
bêbados, loucos, com o diabo no corpo. Ela apareceu
com um pouco de maconha. Enchemos os pulmões daquilo,
até as tripas. Tudo com Dinorah. O mundo estava rodando.
Quando saí
do quarto, era noite. Eu não tinha relógio.
Devia ser de madrugada. As ruas vazias. Cheguei em casa desfalecido,
suado, fedido, bêbado. Quase inconsciente. Me joguei
na cama e dormi na mesma hora, como uma pedra.
© Pedro Juan Gutiérrez
Trecho do livro de O
ninho da serpente: Memórias do filho do sorveteiro
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