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Estou leve demais para
chorar. Não tenho desejos, ou não consigo rezar,
nem agradecer. Nunca peço nada a Deus. Só agradeço.
Tenho sempre muita coisa para agradecer, mas agora não.
Estou transparente, vazio como o ar. Levantei-me e segui pela
Carlos III Unter der Linden. Era uma boa hora. O
entardecer. O crepúsculo e as árvores. A hora
das libações, como dizia a mulher mais bonita
que tive na vida. Neste horário o marido dela estava
libando em algum bar e só voltava depois das dez da
noite. E eu aproveitava para fazer pequenas orgias de duas
ou três horas com ela, que afinal terminavam com todos
libando juntos, a partir das dez, como bons amigos ao fim
e ao cabo. Tenho a impressão de que ele desconfiava
de alguma coisa, mas isso já é outra história.
Desde então, o crepúsculo sempre foi terrível
para mim.
Nada de libações, Pedra ]uan,
disse para mim mesmo. Aí me dei conta de que eu era
um mendigo de merda. Um pedinte asqueraso. Sujo, com barba
de dois dias. Estava sem sapatos e sem camisa, andando ainda
meio bêbado, quase inconsciente. Podia pedir esmola
e comprar alguma coisa de comer. Depois resolvia que droga
ia fazer para voltar para o meu quarto e agarrar a Cusa pelo
pescoço e acabar com a raça dela. Por que você
me deixou ali caído, sua filha da puta? , haveria de
perguntar-Ihe, só que entre bofetões. Gosto
de dar uns bons sopapos nas mulheres, quando elas merecem.
E vou comer a Cusa desse jeito. Dando bofetões na cara
dela. Bem ardidos, bem doídos, vou encher a cara dela
de bolacha e quando meu pau ficar duro, meto nela. Ahh, que
bom. E a velha vai dizer: "Pare de me bater, mas ponha
tudo, até o talo, papi gostoso. Pare de me bater, porra!".
E na hora começa a ter orgasmos e a gritar e a ofegar
com cada jato de porra. Ah, como Vou gozar com aquela velha
peituda.
Estendi a mão e comecei a pedir a
todos os que passavam por mim. Mal balbuciava alguma coisa.
Para pedir esmolas não Se pode falar com clareza, nem
argumentar, nem nada. Você é um animal miserável,
um micróbio pedindo umas moedas pelo amor de Deus.
Um pesteado.
Assim foi desde que o mundo é mundo.
É toda uma arte pedir esmola e aparentar imbecilidade,
cretinismo, embriaguez crônica, burrice. Só um
imbecil pede esmola. Se o cara está um pouquinho acima
da imbecilidade é porque pode fazer alguma outra coisa.
Assim é. É preciso fazer cara de imbecil para
convencer. Mas nem assim. Ninguém me deu nada! Andei
muitos quarteirões Carlos III abaixo. Lentamente. Esfarrapado.
Sem rumo. Com cara de louco ou de imbecil, estendendo as mãos
abertas diante de todos e balbuciando. Ninguém me deu
nem uma moeda! Que horror! Nada. Naquela noite eu podia ter
morrido de fome. Percorri toda a Carlos III. Duas ou três
horas. Não sei quanto tempo. Pedindo pelo amor de Deus.
E todos viravam a cara. Olhavam para outro lado. Ou fingiam
que eu era um fantasma. Eu nunca tinha pedido esmola antes.
Mas é terrível pedir esmola quando as pessoas
são tão miseráveis. Estão todos
no fundo do poço e detestam quando outro vem se queixar.
Muitos me disseram: "Não enche o saco, velho,
que eu até gostaria que alguém me desse esmola".
Assim que nem um centavo. Em compensação,
recuperei a lucidez. Tinha de voltar para minha casa. Por
que estava retardando a hora de voltar para casa? Não
queria aparecer lá arrebentado, quase desmaiado. Os
vizinhos são fofoqueiros. Hoje eu entendo.A razão
é essa. Um pouco mais lúcido, falei para mim
mesmo: "Volte para casa, Pedro Juan, tente chegar. Já
está escuro, ninguém vai ver você".
Pelo jeito desconectei o piloto automático e assumi
de novo o comando.
Nesse momento, vejo que estou na frente
da casa de Zulema. Ah, ela sim, vai me ajudar. Atravessei
a avenida. Subi as escadas. Na última vez em que falei
com ela, ela estava tristíssima porque o sobrinho havia
voltado para a Suécia e ela botara o marinheiro bêbado
para fora de casa. É uma bela de uma filha da puta,
mas agora pelo menos eu ia poder comer alguma coisa, ia arranjar
uma camisa e um par de sapatos. Zulema vivia num quarto de
quatro metros por quatro. Um quartinho de merda, igual ao
meu, onde tivemos bons encontros de noites inteiras. Ela é
insaciável. No meu quarto aproveitamos mais, porque
entre um e outro round tínhamos o mar à nossa
frente. Seu quartinho, porém, só tem uma janela
de merda que dá para o corredor do andar, onde os outros
vizinhos gritam, se agridem, e a merda dos cachorros fede.
Nada mais. A única esperança dela era que Carlos
Manuel a levasse para Miami. Carlos Manuel foi o homem de
sua vida durante muitos anos. Casaram-se. Tiveram um filho,
e Carlos Manuel tentou sair clandestinamente do país.
A guarda fronteiriça o pegou. Ele podia ter pegado
dois ou três anos de prisão, mas o sujeito é
desbocado e largou uns quantos desaforos contra o governo
e o comunismo. Não muitos.Na verdade não disse
quase nada, proporcionalmente os que estava pensando. Mas
pegou mal. O advogado nem abriu a boca para defendê-Io.
Recebeu uma pena de dez anos de prisão. Cumpriu e,
quando saiu, arrumou os papéis e se picou. Não
podia morar em Cuba. A família de Zulema não
deixou ela ir junto. A mãe ficou um ano em estado de
choque em cima de uma cama. Agora o sujeito se apaixona de
novo por Zulema e quer buscá-Ia, legalmente. Com todos
os papéis em ordem. O filho dele, que já tem
vinte anos, Zulema, e uma filha que ela teve depois, com outro
de seus maridos.
Subi como pude até o terceiro andar.
Bati na casa dela. Ela abre e quando me vê arregala
os olhos como se estivesse vendo um morto. Vai me bater a
porta na cara. Não deixo.
- Zulema, espere! Espere, por favor, que
sou eu e estou morrendo.
Ela continua forcejando para fechar a porta.
Não disse nada. não abre a boca. Só tenta
fechar a porta. A cara é de terror.
De repente, a porta se abre violentamente
e aparece um sujeito imenso. Parece um orangotango. É
um mulato gordo e forte, de bigodão preto ao redor
da boca. O sujeito está furioso.
- Que porra está acontecendo aqui?
Que porra está acontecendo aqui? Quem é esse
sujeito tão asqueroso, menina?
- Não sei! Não conheço!
- Zulema diz.
- Zulema! Como, não me conhece?
- Conhece ou não conhece? - pergunta
o orangotango.
- Ai, não, Pipo, isso aí é
um ladrão! Não conheço! Não sei
quem é!
- Olhe aqui, sua filha da puta, não
se faça de doi...!
O cara não me deixa terminar.
- Como é que você chama a minha
mulher de filha da puta,rapaz. Ficou maluco?
Ele me agarra e começa a me socar
como se eu fosse uma punching bag. Nem sei descrever. Não
consigo, porque só de lembrar, vomito. Em vez de punhos
de carne e osso, tinha chumbo. Bolas de aço. Me esquartejou
os ossos, me jogou escada abaixo, e os dois fecharam a porta.
Começaram a ecoar os cantos gregorianos.
Ave Maria. Aleluia. Fiquei inconsciente não sei quanto
tempo.
Acordei numa cama do pronto-socorro. Com
o maxilar, o braço esquerdo, a clavícula e várias
costelas quebrados. Diz a enfermeira que me operaram o baço.
Parece que além disso estou com o fígado e os
rins corroídos, e que isso é irreversível.
Todos os médicos me perguntam se bebi álcool
de madeira ou ácido sulfúrico.
Bom, não sei de nada. Podia ser pior.
Estou imobilizado. Há dois ou três tubos despejando
líquido nas minhas veias. Uma das enfermeiras me agrada
muito, mas com esta barba grisalha pareço um velho
de merda. Um velho pedinte abandonado por Deus nesta esquina
do mundo. E a enfermeira me trata com carinho de mamãezinha.
Elas gostam disso. Todas as enfermeiras são iguais.
Adoram tratar os pacientes como se fossem bobos ou anormais
ou um filho pequeno e desvalido. Ai, me dão raiva.
Bom, aqui terei tempo para pensar. Zulema uma vez me disse
que sua vida tinha sido muito porca. Parece que continua igual.
Terei tempo para pensar um pouco nisso. Por que uma mulher
bonita e agradável se atira a uma vida porca e não
consegue mais parar, mesmo sabendo que todo dia se revolve
no lodo e na merda? A miséria torce as pessoas.
Mas o importante é que tenho de me
recuperar e agarrar o touro pelos chifres. Daí vou
dar umas boas porradas no tal de Pipo. Vou esperar por ele
na escada e moer de porrada. Nunca mais ele vai ficar de pau
duro, porque vou esmagar os bagos dele.
© Pedro Juan Gutiérrez
Pegar o touro pelos
chifres é uma história que é incluída
no livro Trilogia
suja de Havana
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