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  Trilogía sucia de La Habana (cuento)  
 
Pegar o touro pelos chifres (história)
Pedro Juan Gutiérrez

   Estou leve demais para chorar. Não tenho desejos, ou não consigo rezar, nem agradecer. Nunca peço nada a Deus. Só agradeço. Tenho sempre muita coisa para agradecer, mas agora não. Estou transparente, vazio como o ar. Levantei-me e segui pela Carlos III Unter der Linden. Era uma boa hora. O entardecer. O crepúsculo e as árvores. A hora das libações, como dizia a mulher mais bonita que tive na vida. Neste horário o marido dela estava libando em algum bar e só voltava depois das dez da noite. E eu aproveitava para fazer pequenas orgias de duas ou três horas com ela, que afinal terminavam com todos libando juntos, a partir das dez, como bons amigos ao fim e ao cabo. Tenho a impressão de que ele desconfiava de alguma coisa, mas isso já é outra história. Desde então, o crepúsculo sempre foi terrível para mim.

   Nada de libações, Pedra ]uan, disse para mim mesmo. Aí me dei conta de que eu era um mendigo de merda. Um pedinte asqueraso. Sujo, com barba de dois dias. Estava sem sapatos e sem camisa, andando ainda meio bêbado, quase inconsciente. Podia pedir esmola e comprar alguma coisa de comer. Depois resolvia que droga ia fazer para voltar para o meu quarto e agarrar a Cusa pelo pescoço e acabar com a raça dela. Por que você me deixou ali caído, sua filha da puta? , haveria de perguntar-Ihe, só que entre bofetões. Gosto de dar uns bons sopapos nas mulheres, quando elas merecem. E vou comer a Cusa desse jeito. Dando bofetões na cara dela. Bem ardidos, bem doídos, vou encher a cara dela de bolacha e quando meu pau ficar duro, meto nela. Ahh, que bom. E a velha vai dizer: "Pare de me bater, mas ponha tudo, até o talo, papi gostoso. Pare de me bater, porra!". E na hora começa a ter orgasmos e a gritar e a ofegar com cada jato de porra. Ah, como Vou gozar com aquela velha peituda.

   Estendi a mão e comecei a pedir a todos os que passavam por mim. Mal balbuciava alguma coisa. Para pedir esmolas não Se pode falar com clareza, nem argumentar, nem nada. Você é um animal miserável, um micróbio pedindo umas moedas pelo amor de Deus. Um pesteado.

   Assim foi desde que o mundo é mundo. É toda uma arte pedir esmola e aparentar imbecilidade, cretinismo, embriaguez crônica, burrice. Só um imbecil pede esmola. Se o cara está um pouquinho acima da imbecilidade é porque pode fazer alguma outra coisa. Assim é. É preciso fazer cara de imbecil para convencer. Mas nem assim. Ninguém me deu nada! Andei muitos quarteirões Carlos III abaixo. Lentamente. Esfarrapado. Sem rumo. Com cara de louco ou de imbecil, estendendo as mãos abertas diante de todos e balbuciando. Ninguém me deu nem uma moeda! Que horror! Nada. Naquela noite eu podia ter morrido de fome. Percorri toda a Carlos III. Duas ou três horas. Não sei quanto tempo. Pedindo pelo amor de Deus. E todos viravam a cara. Olhavam para outro lado. Ou fingiam que eu era um fantasma. Eu nunca tinha pedido esmola antes. Mas é terrível pedir esmola quando as pessoas são tão miseráveis. Estão todos no fundo do poço e detestam quando outro vem se queixar. Muitos me disseram: "Não enche o saco, velho, que eu até gostaria que alguém me desse esmola".

   Assim que nem um centavo. Em compensação, recuperei a lucidez. Tinha de voltar para minha casa. Por que estava retardando a hora de voltar para casa? Não queria aparecer lá arrebentado, quase desmaiado. Os vizinhos são fofoqueiros. Hoje eu entendo.A razão é essa. Um pouco mais lúcido, falei para mim mesmo: "Volte para casa, Pedro Juan, tente chegar. Já está escuro, ninguém vai ver você". Pelo jeito desconectei o piloto automático e assumi de novo o comando.

   Nesse momento, vejo que estou na frente da casa de Zulema. Ah, ela sim, vai me ajudar. Atravessei a avenida. Subi as escadas. Na última vez em que falei com ela, ela estava tristíssima porque o sobrinho havia voltado para a Suécia e ela botara o marinheiro bêbado para fora de casa. É uma bela de uma filha da puta, mas agora pelo menos eu ia poder comer alguma coisa, ia arranjar uma camisa e um par de sapatos. Zulema vivia num quarto de quatro metros por quatro. Um quartinho de merda, igual ao meu, onde tivemos bons encontros de noites inteiras. Ela é insaciável. No meu quarto aproveitamos mais, porque entre um e outro round tínhamos o mar à nossa frente. Seu quartinho, porém, só tem uma janela de merda que dá para o corredor do andar, onde os outros vizinhos gritam, se agridem, e a merda dos cachorros fede. Nada mais. A única esperança dela era que Carlos Manuel a levasse para Miami. Carlos Manuel foi o homem de sua vida durante muitos anos. Casaram-se. Tiveram um filho, e Carlos Manuel tentou sair clandestinamente do país. A guarda fronteiriça o pegou. Ele podia ter pegado dois ou três anos de prisão, mas o sujeito é desbocado e largou uns quantos desaforos contra o governo e o comunismo. Não muitos.Na verdade não disse quase nada, proporcionalmente os que estava pensando. Mas pegou mal. O advogado nem abriu a boca para defendê-Io. Recebeu uma pena de dez anos de prisão. Cumpriu e, quando saiu, arrumou os papéis e se picou. Não podia morar em Cuba. A família de Zulema não deixou ela ir junto. A mãe ficou um ano em estado de choque em cima de uma cama. Agora o sujeito se apaixona de novo por Zulema e quer buscá-Ia, legalmente. Com todos os papéis em ordem. O filho dele, que já tem vinte anos, Zulema, e uma filha que ela teve depois, com outro de seus maridos.

   Subi como pude até o terceiro andar. Bati na casa dela. Ela abre e quando me vê arregala os olhos como se estivesse vendo um morto. Vai me bater a porta na cara. Não deixo.

   - Zulema, espere! Espere, por favor, que sou eu e estou morrendo.

   Ela continua forcejando para fechar a porta. Não disse nada. não abre a boca. Só tenta fechar a porta. A cara é de terror.

   De repente, a porta se abre violentamente e aparece um sujeito imenso. Parece um orangotango. É um mulato gordo e forte, de bigodão preto ao redor da boca. O sujeito está furioso.

   - Que porra está acontecendo aqui? Que porra está acontecendo aqui? Quem é esse sujeito tão asqueroso, menina?

   - Não sei! Não conheço! - Zulema diz.

   - Zulema! Como, não me conhece?

   - Conhece ou não conhece? - pergunta o orangotango.

   - Ai, não, Pipo, isso aí é um ladrão! Não conheço! Não sei quem é!

   - Olhe aqui, sua filha da puta, não se faça de doi...!

   O cara não me deixa terminar.

   - Como é que você chama a minha mulher de filha da puta,rapaz. Ficou maluco?

   Ele me agarra e começa a me socar como se eu fosse uma punching bag. Nem sei descrever. Não consigo, porque só de lembrar, vomito. Em vez de punhos de carne e osso, tinha chumbo. Bolas de aço. Me esquartejou os ossos, me jogou escada abaixo, e os dois fecharam a porta.

   Começaram a ecoar os cantos gregorianos. Ave Maria. Aleluia. Fiquei inconsciente não sei quanto tempo.

   Acordei numa cama do pronto-socorro. Com o maxilar, o braço esquerdo, a clavícula e várias costelas quebrados. Diz a enfermeira que me operaram o baço. Parece que além disso estou com o fígado e os rins corroídos, e que isso é irreversível. Todos os médicos me perguntam se bebi álcool de madeira ou ácido sulfúrico.

   Bom, não sei de nada. Podia ser pior. Estou imobilizado. Há dois ou três tubos despejando líquido nas minhas veias. Uma das enfermeiras me agrada muito, mas com esta barba grisalha pareço um velho de merda. Um velho pedinte abandonado por Deus nesta esquina do mundo. E a enfermeira me trata com carinho de mamãezinha. Elas gostam disso. Todas as enfermeiras são iguais. Adoram tratar os pacientes como se fossem bobos ou anormais ou um filho pequeno e desvalido. Ai, me dão raiva. Bom, aqui terei tempo para pensar. Zulema uma vez me disse que sua vida tinha sido muito porca. Parece que continua igual. Terei tempo para pensar um pouco nisso. Por que uma mulher bonita e agradável se atira a uma vida porca e não consegue mais parar, mesmo sabendo que todo dia se revolve no lodo e na merda? A miséria torce as pessoas.

   Mas o importante é que tenho de me recuperar e agarrar o touro pelos chifres. Daí vou dar umas boas porradas no tal de Pipo. Vou esperar por ele na escada e moer de porrada. Nunca mais ele vai ficar de pau duro, porque vou esmagar os bagos dele.

© Pedro Juan Gutiérrez

   Pegar o touro pelos chifres é uma história que é incluída no livro Trilogia suja de Havana

 
   
   
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