|
"AGORA estava treinando para não levar nada a sério. O homem pode cometer muitos erros pequenos, e não tem importância. Mas se os erros são grandes e pesam em sua vida, a única coisa que ele pode fazer é não se levar a sério. Só assim evita sofrer. O sofrimento prolongado pode ser mortal."
(...)
“Sexo não é para gente escrupulosa. Sexo é intercâmbio de líquidos, de fluidos ,de saliva, hálito e cheiros fortes,urina, sêmem, merda, suor micróbios, bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, reduz-se a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada.”
(Trechos do conto Coisas novas em minha vida).
(…)
“...NA VERDADE, aqueles entardeceres com rum e luz dourada e poemas duros ou melancólicos e cartas aos amigos distantes me faziam ganhar confiança em mim mesmo. Se você tem idéias próprias - mesmo que sejam poucas idéias próprias - tem que compreender que estará sempre encontrando caras feias, gente que vai fazer questão de lhe dar o contra, de diminuí-lo de «faze você entender» que não tem nada a dizer, ou que você deve evitar aquele sujeito porque é louco, ou efeminado, ou um verme, um ladrão,outro porque é punheteiro ou voyeur ,outro porque é ladrão, outro macumbeiro, espírita, maconheiro, outra porque é canalha, indecente,puta, sapatona,mal-educada.
Ele reduzem o mundo a umas poucas pessoas hibridas, monótonas, aborrecidas e «perfeitas». E assim querem transformar você num excluído num merda. Jogam você de cabeça na seita particular deles para ignorar e suprimir todos os outros. E lhe dizem:
«A é assim, meu senhor, um processo de seleção e descarte. Nós somos donos da verdade. O resto que se foda. E como passam trinta e cinco anos martelando isso no seu cérebro,quando você está isolado se acha o máximo e se empobrece muito porque perde uma coisa bonita da vida ,que é desfrutar a diversidade, aceitar que nem todos somos iguais e que se assim fosse seria muito chato.»”
(Trecho do conto A lembrança da ternura).
(…)
“...DESDE então me incomodam muito estas duas palavras:correto e sensato. São falsas e pedantes. Servem para ocultar e mentir. Tudo e incorreto e insensato. Toda historia, toda a vida, todas as épocas foram incorretas e insensatas. Nós mesmos. Cada um de nós, por natureza, é incorreto e insensato, só que nos reprimimos para voltar para o cercado como boas ovelhas, e aplicamos rédeas e mordaças em nós mesmos.
Levei essa vida dupla durante muito tempo:correto e sensato, no trabalho. Incorreto e insensato no cortiço com Miriam. Ainda não me sentia livre, mas já estava no rumo. A verdade é que não me interessa nada que seja linear, reto. Não me interessa coisa nenhuma que progrida limpidamente de um ponto a outro, e que se saiba perfeitamente que tal linha começou aqui e terminou ali!
Não.
Nunca se deve pretender ser correto e sensato e levar uma vida linear e exata. A vida é muito imprevisível.”
(Trecho do conto Abandonando as boas costumes).
(…)
"EU ERA um sujeito então perseguido pela saudade. Sempre fora, e não sabia como me desligar da saudade e viver tranqüilamente.
Ainda não aprendi. e desconfio que não aprenderei nunca. pelo menos já sei algo valioso: é impossível me desligar da saudade porque é impossível me desligar da memória. É impossível se desligar daquilo que se amou.
Tudo sempre estará sempre junto conosco. sempre teremos tanto o desejo de refazer o bom da vida como o de esquecer e destruir a lembrança do mau. apagar as maldades que cometemos, desfazer a recordação das pessoas que nos prejudicaram, remover as tristezas e as épocas de infelicidade.
É totalmente humano, então, ser um nostálgico, e a única solução é aprender a conviver com a saudade. talvez, para a nossa sorte, a saudade possa transformar-se, de algo depressivo e triste, numa pequena chispa para o novo, para entregar-nos a outro amor, a outra cidade, a outro tempo, que talvez seja melhor ou pior, não importa, mas que será diferente. e isso é o que todos procuramos todo dia: não desperdiçar em solidão a nossa vida, encontrar alguém, nos entregar um pouco, evitar a rotina, desfrutar de nossa fatia de festa.
Eu ainda estava assim. tirando todas essas conclusões. a loucura me rondava e eu fugia dela. tinha sido demais em muito pouco tempo para uma pessoa só..."
(...)
“- É, mas eu não trabalhava lá fazia muito tempo. Eu era o Superman. Tinha sempre um cartaz só para mim: «Superman, único no mundo, exclusivamente neste teatro». Sabe quanto media o meu pau bem duro? Trinta centímetros. Eu era um fenômeno. Me anunciavam assim: «Um fenômeno da natureza... Superman... trinta centímetros, um pé, doze polegadas de Superpica... com vocês... Superman!».
- Você sozinho no palco?
- É, eu sozinho. Entrava vestindo uma capa de seda vermelha e azul. No meio do palco, ficava de pé na frente do público, abria a capa de repente e ficava pelado, com o pau mole. Sentava numa cadeira e aparentemente olhava a platéia. Na verdade, ficava olhando para uma branca, loira, que os caras instalavam para mim entre os bastidores, em cima de uma cama. Aquela mulher me deixava louco. Ela tocava uma siririca e quando estava bem excitada um branco se juntava com ela e começava a fazer de tudo. De tudo. Aquilo era tremendo. Mas ninguém via os dois. Era só para mim. Olhando aquilo, meu pau endurecia de arrebentar e, sem tocar nele em nenhum momento, eu gozava. Tinha vinte e poucos anos e lançava uns jatos de porra tão potentes que chegavam no público da primeira fila e borrifavam os veados todos.
- E fazia isso toda noite?
- Toda noite. Sem falhar nenhuma. Ganhava um bom dinheiro, e quando gozava com aqueles jorros tão grandes e abria a boca e começava a gemer com os olhos revirados e levantava da cadeira como se estivesse maconhado, os veados brigavam para ver quem ia tomar banho na minha porra, era como se fossem fitas de serpentina num baile de carnaval, e me jogavam dinheiro no palco e sapateavam e gritavam para mim: «Bravo, bravo, Superman!». Aquele era o meu público e eu era um artista que deixava eles felizes. Aos sábados e domingos ganhava mais, porque o teatro ficava cheio. Cheguei a ser tão famoso que turistas de toda parte do mundo iam me ver.
- E por que parou?
- Porque a vida é assim. Às vezes você está por cima, às vezes por baixo. Já com trinta e dois anos mais ou menos os jorros começaram a minguar, e depois chegou um momento em que eu perdia a concentração e às vezes o pau caía um pouco e depois levantava de novo. Muitas noites eu não conseguia gozar. Já estava meio louco, porque foram muitos anos forçando o cérebro. Tomava pó de pau de tartaruga, ginseng, na farmácia chinesa de Zanja me preparavam um xarope que dava resultado, mas que me deixava muito nervoso. Ninguém imaginava o quanto me custava ganhar a vida assim. Eu tinha minha mulher. Ficamos juntos a vida inteira como se diz, desde que cheguei a Havana até que ela morreu, há uns meses. Bom, pois nessa época eu nunca podia gozar com ela. Nunca tivemos filhos. Minha mulher jamais viu minha porra, em doze anos. Era uma santa. Sabia que se a gente trepasse como Deus manda e eu gozasse, de noite eu não ia conseguir fazer meu número no Shangai. Eu tinha de acumular toda a porra de vinte e quatro horas para o espetáculo de Superman.
- Tremenda disciplina.
- Ou eu tinha essa disciplina ou morria de fome. Não era fácil ganhar a grana naquela época.”
(Trechos do conto Enterrado em merda).
(…)
“NÃO ME interessa o decorativo,nem o bonito,nem o doce, nem o delicioso. A arte só serve para alguma coisa se é irreverente,atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada,indecente,violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos a nossa consciência.”
(Trecho do conto Eu, batedeira de merda).
(...)
“EU ESTAVA relaxado. Com muito sexo, e muito tranqüilo de espírito. Nada atormentado. Bom, tormentos sempre há. Mas agora consegui afastá-los um pouco. Deixei-os a uma certa distância no futuro. É uma boa maneira de torná-los indistintos e não escutá-los. Eu tinha uma mulher em casa. Havia recuperado alguns quilos. E vivia. Sem nada para fazer. Sobreviver, creio que se chama isso. Deixar-se deslizar e não esperar nada mais. Muito fácil.”
(Trecho do conto Nada para fazer).
(…)
“...GOSTO de me masturbar cheirando minhas axilas. O cheiro de suor me excita. Sexo seguro e perfumado. Principalmente quando estou com tesão de noite e Luisa anda por aí, ganhando uns pesos,fazendo a vida. Embora já não seja a mesma coisa. Com quarenta e cinco anos minha libído está se reduzindo. Tenho menos sêmen. Só um jorrinho uma vez por dia. Acho que entrei no climatério:menos desejo,menos sêmen, glândulas mais lentas. De toda forma, as mulheres continuando voejando ao meu redor. Acho que hoje tenho mais espírito. Haha, eu com mais espírito. Não vou dizer que estou mais perto de Deus. É uma bela frase,bem pedante: «Ah, estou mais perto de Deus». Não. De jeito nenhum. Deus me dá sinais,ás vezes. E eu continuo tentando. Só isso.”
(Trecho do conto Estrelas e perdedores).
(…)
“ÀS VEZES o que se precisa é muito pouco: sexo, rum e uma mulher que te fale algumas bobagens. Nada inteligente. Estou esgotado de gente inteligente e astuta. Depois ela se vai e vocé fica só e tranqüilo. Bebe mais rum. Toma uma ducha e deita para dormir. No outro dia amanhece fresco e descansado. Pronto para sorrir e responder que está muito bem e encantado com a vida. E as pessoas te dizem: "Oh, que bom. Enfim alguem encantado com a vida."
Mas nem sempre é assim. Nem tudo é táo fácil e táo bem engrenado. Ás vezes tropeço com mulheres muito desconcertantes. Como Carmen. Ela é desse tipo de pessoas que resolvem sua vida de um modo simples: tens dinheiro ou não tens dinheiro. O resto não importa. Cada dia encontro mais mulheres assim. Talvez sempre tenham existido, mas eu as noto só agora. De qualquer modo, não quero falar de Carmen. Muito cinismo. Cinismo pragmático, quero dizer. O talvez nem isso.(...)
Depois velo Maria. Todo ao contrário. Incandescente. Uma poeta desenfreada de Guanabacoa. Me escrevia poemas e me forrava com eles, escritos em papéis verdes, com sua letra grande e redonda: «Agonizo envolta no cataclismo voraz do impossível.» «Teu alento, um vulcáo no meu corpo. Uivam meus espelhos.» Não suportel tanto fogo. Não pude resistir a sua voracidade insaciável de mulata delirante. Oueimou minha pele e meu coraçáo em pouco tempo. Renasci das cinzas. E continuei só."
(Trecho do conto Alegres, livres e ruidosas).
(…)
"...ESTAVAM de olhos fechados e gozavam e suspiravam. Não resisti à tentação e fiquei olhando para eles. nSentei a dez metros deles e fiquei ouvindo os dois. O cara tirava o pau e se masturbava e masturbava a mulher. E eu vendo tudo. Não aguentei mais. Abri a braguilha e também me masturbei. Um mulato fazia a mesma coisa, sentado do outro lado. Mais adiante, havia uma mulher encostada no muro do Malecón. Meio bêbada, talvez. Eu não queria chegar sozinho ao orgasmo. Me aproximei dela e mostrei o pau, bem duro dentro da calça. Ela estendeu a mão, agarrou meu pau e apertou. Tirou a mão e gesticulou, mostrando que estava de barriga vazia e queria comer. Depois agarrou de novo meu pau e apertou forte. Me olhou nos olhos. Era muda e queria comer.
- Você quer um cachorro-quente?
Rugiu com a garganta para dizer que sim.
Revirei os bolsos. Tinha dez pesos e dois dólares. Nem fodendo! Não podia pagar um cachorro-quente de um dólar para a muda me bater uma punheta. Provavelmente com o pau seco, porque com certeza não ia querer molhar com sua saliva. Disse-lhe que não com o dedo e olhei para os negros. Continuavam trepando de olhos fechados. Me aproximei até conseguir escutá-los. Me sentei junto ao mar, de costas para a cidade, e toquei. Daí a pouco ejaculei e soltei um bom jato de porra na água escura e tranquila. O caribe recebeu meu sêmen. Tinha muito sêmen. Dias demais sem mulher e deixando o tempo passar."
(Trecho do conto As portas de Deus).
(...)
"NÃO gosto de falar das etapas da minha vida porque a dor se remexe. Mas assim é. Vive-se em capítulos. E é preciso aceitar. Muita gente à minha volta andou injetando rancor e ódio no meu coração. O final era previsível: ingressar no caos, seguir para baixo e não parar até o inferno. Quando estivesse assando no azeite e no enxofre em chamas, não haveria mais remédio.
Já estava seco e fedendo a gases sulfúricos quando consegui deter a queda. E comecei a recuperar algo do melhor. Me custou esforço. Nunca voltei a ser o mesmo. Por sorte a vida é irreversível. E, sobretudo, não continuei rodando até o inferno. Provas que a vida nos impõe. Se não se sabe, ou não se consegue superá-las, ai se tomba. E talvez não se tenha tempo nem pra se despedir."
(Trecho do conto Deixando para trás o inferno).
(...)
"...SE ESTOU rodeado de silêncio ,eu sou eu. E isso me basta.
Minha vida se dispersa continuamente.Como um rio que sai do leito e transborda sobre a terra. Então, tenho de abandonar muitas coisas e pensar no que é útil e bom.Só assim controlo as águas e as faço voltar ao seu leito. É como um pêndulo.Foi sempre assim.Já me acostumei a viver com essas inundações que arrasam tudo, e depois a calma,o controle,a solidão,o silencio.É como uma longa aprendizagem. Infinita .Desconfio que nunca se concluirá"
(Trecho do conto Sobreviva que pode).
(...)
“- O ESTRANGEIRO do plástico chegou ontem.
- Quando, menina?
- Ontem. E me falou que é para você ir lá.
Eu logo me meto porque nessa história tem grana no meio:
- Que história é essa do estrangeiro do plástico?
- Um estrangeiro que aparece de vez em quando. Depois explico.
Em dez minutos, Isabel está vestida com sua lycra branca, sua mochilinha de couro, muito perfume, muitas bijuterias, penteado louco, me dá um beijo rindo, alegre, e me diz:
- Não me espere, papi, que já ganhámos o pão. Mas é até amanhã, pelo menos.
- Bom, tchau. Cuide-se.
(...)
Afinal amanhece. Fico um pouco na cama. Estou rendido. Durmo. Nisso chega Isabel. Morta de sono e cansa ço.
- Ai, papi, esse estrangeiro não me deixou dormir a noite inteira. Estou acabada e com a boceta ardendo. Porra, que burro, que imbecil que ele é!
- Bom, me explique: o cara tem o pau de plástico?
Não, não. Só a cabeça. A cabeça inteira é de plástico. É uma prótese. Mas mesmo assim não gozou. Nem com Susi, nem comigo.
- As duas ao mesmo tempo?
- É. É. A noite inteira batalhando com ele e não gozou. Deixei-o com Yakelín. Quem sabe se não vai ficar trepando dez dias sem gozar?
- É o plástico que não deixa gozar?
- Claro, pois só sente o pescocinho de trás. E os berros que dá. A gente tem de agüentar cada uma...
- Quanto lhe deu?
- Cem mangos. Ele paga cem mangos por noite. Nunca lhe falei dele?
- Não.
- Ah, porque fazia um ano que não aparecia. Esse estrangeiro... bom... nós somos... Susi, Yakelín, Mirtica, Lili, Sonia e eu. Somos seis. E uma vai avisando a outra e fazendo turnos até que acaba gozando com uma de nós. E aí, voltamos para o segundo tempo, porque o sujeito é incansável. às vezes fica três semanas aqui, e é toda a noite, sem pular nenhuma. Quando afinal goza, aí relaxa, se acalma e convida a gente para jantar, dançar.
- E soltou cem mangos para você?
- É, papi. Tá aqui. Mas além disso, vou voltar para o segundo tempo daqui a três ou quatro dias. Esse estrangeiro é nosso e a gente não deixa mais ninguém chegar perto.”
(Trechos do conto O triângulo dos adivinhadoras).
©Pedro Juan Gutiérrez
Trechos incluíram no livro Trilogia
suja de Havana, publicado em Portugal e Brasil.
|